• cinco minutos

    Um namorado, na faculdade, dizia que queria ler todos os romances do José de Alencar antes de chegar nos 30 anos. Nem ele fez isso, nem eu. Se bem que eu nunca quis. Achei que era uma boa meta pra estudante, mas meu ranço do Alencar sempre falou mais alto. E agora, aos 40, comecei a ler as obras completas dele. Não amadureci, mas cansei: deixei o ranço de lado.

    Cinco minutos é muito engraçado. Lógico que tem todo o pacote boy lixo alencariano, mas não dá pra negar que a bicha tem C.U.N.T. Além de todo o interesse histórico (as tópicas do romantismo usadas quase didaticamente, etc.), é bonito como os temas do atraso e do tempo breve vão se desenvolvendo, se repetindo, se multiplicando na trama. Capaz que seja mais interessante do que parece também pro nosso século ansioso.

  • apagada

    O que fica da gente é a memória, a pegada de carbono, o amor dado ao outro, provocado, sentido, as histórias e moléculas se desfazendo, o chorume, as cinzas, o futuro imaginado, a imaginação vibrando na linha fina das ondas gravitacionais, o peso no planeta, o peso do pecado, o efeito borboleta, o espírito eterno, fogo tolo, não sei o que fica da gente.

  • lamentações

    Se eu tivesse uma esposa, escreveria mais. É horrível mas é verdade. Ou uma faxineira, uma cozinheira. Por isso tem menos mulheres escritoras na história, no mundo. Hashtag Silvia Federici. Mas vim ser viado, o que tem seu charme. Meu banheiro é imundo. O da minha vó também era. Ela era porca, mas agora eu penso: era autônoma. Eu amava muito a minha avó e cada vez que ressignifico ela amo mais. Talvez porque ela então se aproxime mais do que eu gostaria que ela fosse, agora que ela morreu e a vida não atrapalha. Ninguém da minha família inicial era escritoure. Minha mãe era escrevente, o que é quase a mesma coisa. E minha vó tinha imaginação, o que era mais parecido ainda. Foi diagnosticado como esquizofrenia, mas é parecido. Eu não sou louco. Sou louca, o que é quase igual, mas é bem diferente. Queria ter mais tempo pra escrever.

  • desatualizado

    É difícil ser contemporâneo, porque é uma questão de timing, que é uma palavra difícil de coincidir em português. Tudo é difícil, depende só do momento. Um dos lugares-comuns da velhice é o do sujeito estrangeiro na própria terra, a pessoa que olha ao redor e não reconhece nada, mesmo que não tenha saído do lugar. O trem do tempo segue andando, mas a gente vai ficando cada vez mais pra trás. Pode estar dentro dele, mas ele passa pela gente. Mas, mas, mas. Cada coisa tem seu tempo, e ele é um reloginho muscular, camuflado em corpo, dentro da cada coisa.

  • dia do orgulho

    Não sei se mais me irrita, diverte ou dá tesão
    o misto de constrangimento, desconcerto e pavor
    do homem hétero no parque
    quando um cachorro monta em cima do cachorro
    macho dele.

  • gosto é gosto

    Eu tive uma cachorra que adorava se esfregar em bosta na rua. A gente não podia bobear, de repente ela já tava esfregando o pescoço em alguma bosta.

    Tem aquela história da Hilda Hilst pedindo pro empregado dela tirar a bosta do cachorro do meio da sala. O empregado disse: bosta eu não pego não. E ela: por que não?, se eu, que sou doutora, pego. E ele: gosto é gosto, doutora.

  • lady miss warp

    A curiosidade não pressupõe a memória nem o conhecimento, mas aos poucos eu vou me familiarizando com a discografia da Nomiya Maki e entendendo melhor o contexto em que ela foi criando cada peça pra performar essa voz de leite e mel, de algodão úmido, perfeição Gal Costa com solidez Sinatra e contenção Astrud Gilberto, e uma elegância que parece arquetípica, caricatural quase, mas que se mantêm e se reinventa elegância em meio à parafernália pós-moderna, fazendo cover de si mesma. Vou escutando, fuçando sites, traduzindo as letras no trajeto do ônibus, e acho que a curiosidade é o primeiro acorde do amor.

  • dia seguinte

    Quantas obras-primas foram feitas em noites de insônia, também quantas porcarias. Quantos divórcios, quantas guerras começaram estouraram assim. Não há grãos de areia na praia tanto quanto punhetas e siriricas tocadas por querer dormir e não conseguir,

    e haja chá, leitinho, hidrelétricas pra manter as geladeiras abertas. É diferente de quem dorme no relento com medo da polícia, da matilha, da chuva, e de quem passava as noites na prisão de Salazar, com sirene tocando e cacetetes baldes d’água contra descanso. Você tem o conforto possível, o estritamente necessário, até mesmo o impensável – e não adianta. Nessas pensa e se eu separasse o céu e as águas, acendesse a luz, molhasse plantas e monstros marinhos? Sete noites insones depois, Ele pelo menos dormiu.

  • trapo de gato no sol

    Todo dia chegando no trabalho eu passava na mesma calçada e pensava “gente, um gato morto!”. Na primeira vez que isso aconteceu, já ia ficando triste e chegando perto pra observar o mistério da morte largado no cotidiano indiferente, quando percebi outro mistério: o gato se mexia. Foi assim que conheci a Renata.

    Minha amiga que disse que ouviu o papo: do homem na frente da loja dizendo pra outro: “Essa aqui é a Renata, ela tem 25 anos”. Então só podia ser a Renata mesmo: um trapo de gato, cheio de buracos calvos, largado no fiozinho de sol que os prédios deixam chegar na calçada suja e fedida dos Campos Elíseos. Todo dia, chegando no trabalho, eu pensava “meu deus, um gato morto!” antes de reparar que era o mesmo gato do dia anterior, só que em outra posição, ou ver um movimento lento de pulmão ou rabo e lembrar “Ah, é a Renata”. Ali deitada e aproveitando cada suspiro de vida, sem se incomodar com cachorros, carros nem gente que chegava perto pra fazer festinha. A Renata deitada no sol.

    Faz tempo que não vejo ela. Provavelmente morreu? Que é o destino de todas as gatas. Talvez tenha encontrado uma nesga de sol no quintal ou fugido pra campos mais elísios? Tanto ser vivo e não vivo desaparece dessas ruas que é difícil se importar com algum deles. Eu mesmo tento aproveitar o máximo de sol que posso, andando sempre no mesmo horário na mesma calçada, antes de entrar pro prédio escuro e pra luz branca do escritório.

  • o recalque da metrópole

    Tem uma infestação de escorpiões no bairro, o que tem originado conversas cheias de anedotas assustadoras. Eu sempre tive muito medo de bichos peçonhentos, parece um medo irracional, apesar de ser racional, apesar de não ser essa a questão. Lembrei do Casé Angatu falando que, quando aparece uma cobra na aldeia, o pessoal entende como um aviso, um diálogo, e você não mata o mensageiro. Pega a cobra com cuidado e joga ela longe, mas não mata.

    Já eu quero que todos os escorpiões e as baratas morram. Fico triste quando vejo um bicho seco ou tenho que eu mesmo tacar veneno em cima. Mas não sei lidar de outro jeito.

    Um amigo teve infestação de escorpião no prédio no centro de São Paulo e disse que não tinha o que fazer, não existe veneno contra escorpião e, se dedetizar, é pior: o inseticida mata as baratas, que são a comida deles, e aí eles vêm com tudo pra cima, com fome e vingança. Não sei se é verdade, mas as anedotas ensinam muita astrologia.

    Sei que esse caso, junto com ficar ouvindo muito Bad Gays, me deu vontade de reler o Boêmia dos ratos, da Sarah Schullman.