• as palavras de deus

    A Bíblia é um livro múltiplo, a começar pelo título de biblioteca, coletivo de livros. E a evangélica é de um jeito, a católica, de outro, sabe Deus quantos escritos apócrifos, a Bíblia é um livro poroso, tropeçado, incompleto. Os anseios totalitários dos crentes mais aflitos querem que A Palavra seja una. Mas tem as traduções, as transcriações, as adaptações. Eu agora estou relendo o Pentateuco na edição mais xurumbrega que encontrei, uma virtual e gratuita na Amazon feita provavelmente por crentes imbuídos de missão mais do que conhecimento. E é lindo (descontando a sangria e a tortura dos séculos assinada por essa gente), mas é lindo o esforço, a vontade, a dedicação de fazer com que um texto floresça de múltiplas formas, se alastre, dê frutos. Engraçado, por isso ou por isso mesmo, que o texto não baste a esse povo. Que nem quando Deus disse a Moisés que dissesse por meio do dizer de Arão e ninguém botou fé. Talvez porque estivessem sofrendo muito com a opressão e o trabalho. O sofrimento impede a leitura: a gente fica só ecoando o próprio sofrimento.

  • Dentro de trevas claras e um ciclone imóvel
    você se esforça pra aspirar o ar disponível em grande quantidade
    e perfeitamente aspirável pelos dutos e brônquios saudáveis
    por que é tudo tão difícil? Nem tudo
    é tão difícil, o corpo
    escuta silêncios luminosos
    e acolhe a sua ansiedade e a tristeza difusa em células
    capazes de viver sozinhas mesmo que você entre
    em parafuso, a bunda dorme
    mas é só a posição
    em que você pôs os glúteos e a coluna
    diagramação do corpo
    aos poucos não parece impraticável
    mordendo e mastigando cada pedaço
    o tempo te engole
    gostoso

  • drible

    Eu nunca joguei, entendi ou simpatizei com o futebol, então talvez não consiga escrever?: a hipótese de um jogador (uma jogadora?) exímio no drible, mas péssimo no gol e mesmo no passe. Ele ou ela poderia passar os noventa minutos do jogo sozinhe contra todes, com a bola quicando e voltando magnetizada para os pés. A torcida vai ao delírio e ao ódio, mas principalmente à frustração esperançosa. Quando e jogadore tenta passar a bola pra alguém, a bola volta pra ile; quando tenta fazer gol, acaba errando tão feio que só não cai chorando de vergonha no campo porque consegue pegar a bola de novo e rápido, antes que ela saia do campo, antes que as mãos do gol a agarrem. Não sei em que momento o juiz (a juíza?) apita. Quais perguntas vão ser feitas pelos jornais? Os comentários na internet são impiedosos, mas também elogiosos. Se a pessoa não fosse tão apaixonada por futebol, poderia ter tido uma carreira na dança, aliás muito mais bem-sucedida. Mas segue jogando e terminando sempre em zero a zero. O que parece uma derrota, e também parece uma vitória.

  • tipo uma oração

    a vida é um mistério 
    tá tudo sozinho
    eu ouço a sua voz
    e volto pro ninho 

    se você me chama
    tipo em oração 
    eu fico de joelhos
    pra dar direção 

    na hora do medo
    eu sinto o seu dedo
    tipo uma oração 
    te dou direção 

    eu ouço a sua voz
    tipo anjo chorando 
    sei que agora é a vez
    eu ouço a sua voz
    e me sinto voando

    não vejo mais nada
    me sinto caindo
    da terra sagrada
    não vejo mais nada
    meu jesus cristinho!

    tipo uma criança 
    você diz baixinho
    é você quem manda
    tipo uma criança
    eu fico dançando 

    é tipo sonhando
    sem fim nem início 
    você tá comigo
    é tipo sonhando
    e um coral cantando

    tipo uma oração 
    cê dá direção 
    e tipo um saltério
    você me é um mistério 
    to tipo sonhando
    e te procurando
    tipo uma oração 
    é a vez
    sua voz
    me dá direção 

  • metafísica aplicada

    Antes que a ponta toque o buraco, começa
    no vácuo do corpo o desejo nasce arfante
    e a cabeça figura o sonho que encabeça
    a entrada da matéria – única, triunfante

    abrindo a via aberta sem nada que impeça
    e sem sentir a dor que causa lancinante
    assertivo corpo direto ao que interessa:
    o gozo agora e então o gozo mais adiante

    com cuspe e jeito o esfíncter se conforma
    ao forçoso encontro com a outra mucosa
    vai dando novas formas numa móvel forma

    e o que antes era essa rua oculta e ciosa
    banhada em luz sombria ganha nova norma
    unindo matéria e nada – que goza, e goza, e goza.

  • o sonho que eu tive essa noite

    Eu era eu e não era, mesmo sendo eu e não sendo, como costuma ser.

    Num sobradinho de bairro arvorejado moravam o Daniel Johnston adolescente e a mãe dele, uma mulher cansada e bonita, mistura de Keira Knightley com Alice Braga. Eu-não-eu ficava hospedado lá sei lá por que, muito fã do Daniel Johnston, talvez para estudar o menino ou ensinar pra ele, e embarcava num flerte com a mãe solo.

    Só que um dia o Daniel Johnston tinha um surto violento me odiando e eu precisava fugir de tirolesa pela janela, aterrissava no gramado do vizinho e, quando ia pra rua, via lá longe uma explosão atômica e um tsunami de lava varrendo toda a cidade de São Paulo. Então eu e um monte de gente fugia e se refugiava na casa da mãe do Daniel Johnston.

    Os dias passavam no pós-apocalipse, o flerte aumentava e também a fome, porque acabados os enlatados da despensa a gente precisava caçar os ratos gigantes atômicos pra comer.

    Aí a Keira-Knightley-Alice-Braga-cansada descobriu um poço pra cima na despensa, que quando você levantava a mão era sugade para uma superfície misteriosa. Desesperançada, ela fez isso; apaixonado, eu fui logo atrás.

    Quando aterrissei, estava num gramado bonito, dessas casas de filme estadunidense. Lá estava a minha namoradinha sentada numa cadeira de praia com umas cinco pessoas, família e amigos, fazendo churrasco de hambúrguer e aproveitando o mundo lindo.

    Me convidaram pra participar. Eu entendi que era uma outra realidade do multiverso, em que a mãe solo era casada com um tiozão meio babaca e o Daniel Johnston não era autista nem gênio, era um adolescente boçal. A minha amada tinha envelhecido, tinha cabelos brancos e muitas rugas, e me dizia que gostava de mim, mas que a vida dela ali era melhor. Eu achava um desperdício, mas ficava feliz por ela parecer feliz, e afinal era uma escolha dela.

    Aí eu saía pra rua, achando que naquele universo o apocalipse não tinha acontecido, mas QUAL NÃO FOI MINHA SURPRESA QUANDO do lado de fora da casa linda era tudo cinza e Mad Max, ratos gigantes se matando, e a família feliz do Daniel Johnston sem graça era UM BANDO DE CANIBAIS SENHORES DA GUERRA. Então eu saí pelo bairro perigoso pra passear e ver a catástrofe.

    (Sonho é uma coisa que só é mesmo interessante pra ter e contar pro terapeuta…)

  • intestino do espírito

    Tem um fio nas costas das coisas, o camarão é o exemplo, é a materialização do que Deus fez só em pensamento: nesse fio fica a alma (também feita de excremento).

  • eclipse do apocalipse

    O preconceito contra evangélicos está longe de ser um problema no Brasil, mas isso não quer dizer que não exista. Ele se junta com discriminações sérias, principalmente contra pobres e contra pessoas que não (ou pouco) participaram da educação institucional, e um tanto de racismo, e aí sim vira uma coisa grave e que, além de machucar quem sofre, emburrece quem ignora, mas insiste em falar a respeito. Até aí, é o de sempre. Eu mesmo sou muito ignorante, talvez por isso Deus não tenha me dado dinheiro: pra que eu não saísse por aí buzinando bobagens. Mas Deus me deu dois dedos, um teclado, wi-fi e dinheiro, sim, o bastante pra pagar a hospedagem deste site, onde eu posso escrever o que quiser. Deus é bem sacana. Foi o que me ensinaram na escola dominical, mas com sinal invertido. Depois, a vida tratou de me virar do avesso.

  • o poeta como ente não administrativo

    A grande vantagem do texto curto: que, se é ruim, pelo menos é curto (quem disse isso?). Outra vantagem, totalmente relacionada: que, sendo curto, pode calmamente ser ruim. Eu adoro escrever poema ruim. Às vezes faço escolhas ruins de propósito. Não significa que eu pudesse fazer escolhas boas. Talvez eu gostasse do toque de Midas, que artista não gostaria?, que tudo que eu escrevesse fosse clássico, iconoclástico, inesquecível, importante. Mas a história de Midas tá aí pra prevenir a vaidade, e tanta coisa é melhor que o ouro. La vita è bella perché è varia. No que me concerne, no que eu acho que de melhor tenho a oferecer pro mundo, do nariz eu tiro só meleca mesmo.