• metafísica aplicada

    Antes que a ponta toque o buraco, começa
    no vácuo do corpo o desejo nasce arfante
    e a cabeça figura o sonho que encabeça
    a entrada da matéria – única, triunfante

    abrindo a via aberta sem nada que impeça
    e sem sentir a dor que causa lancinante
    assertivo corpo direto ao que interessa:
    o gozo agora e então o gozo mais adiante

    com cuspe e jeito o esfíncter se conforma
    ao forçoso encontro com a outra mucosa
    vai dando novas formas numa móvel forma

    e o que antes era essa rua oculta e ciosa
    banhada em luz sombria ganha nova norma
    unindo matéria e nada – que goza, e goza, e goza.

  • o sonho que eu tive essa noite

    Eu era eu e não era, mesmo sendo eu e não sendo, como costuma ser.

    Num sobradinho de bairro arvorejado moravam o Daniel Johnston adolescente e a mãe dele, uma mulher cansada e bonita, mistura de Keira Knightley com Alice Braga. Eu-não-eu ficava hospedado lá sei lá por que, muito fã do Daniel Johnston, talvez para estudar o menino ou ensinar pra ele, e embarcava num flerte com a mãe solo.

    Só que um dia o Daniel Johnston tinha um surto violento me odiando e eu precisava fugir de tirolesa pela janela, aterrissava no gramado do vizinho e, quando ia pra rua, via lá longe uma explosão atômica e um tsunami de lava varrendo toda a cidade de São Paulo. Então eu e um monte de gente fugia e se refugiava na casa da mãe do Daniel Johnston.

    Os dias passavam no pós-apocalipse, o flerte aumentava e também a fome, porque acabados os enlatados da despensa a gente precisava caçar os ratos gigantes atômicos pra comer.

    Aí a Keira-Knightley-Alice-Braga-cansada descobriu um poço pra cima na despensa, que quando você levantava a mão era sugade para uma superfície misteriosa. Desesperançada, ela fez isso; apaixonado, eu fui logo atrás.

    Quando aterrissei, estava num gramado bonito, dessas casas de filme estadunidense. Lá estava a minha namoradinha sentada numa cadeira de praia com umas cinco pessoas, família e amigos, fazendo churrasco de hambúrguer e aproveitando o mundo lindo.

    Me convidaram pra participar. Eu entendi que era uma outra realidade do multiverso, em que a mãe solo era casada com um tiozão meio babaca e o Daniel Johnston não era autista nem gênio, era um adolescente boçal. A minha amada tinha envelhecido, tinha cabelos brancos e muitas rugas, e me dizia que gostava de mim, mas que a vida dela ali era melhor. Eu achava um desperdício, mas ficava feliz por ela parecer feliz, e afinal era uma escolha dela.

    Aí eu saía pra rua, achando que naquele universo o apocalipse não tinha acontecido, mas QUAL NÃO FOI MINHA SURPRESA QUANDO do lado de fora da casa linda era tudo cinza e Mad Max, ratos gigantes se matando, e a família feliz do Daniel Johnston sem graça era UM BANDO DE CANIBAIS SENHORES DA GUERRA. Então eu saí pelo bairro perigoso pra passear e ver a catástrofe.

    (Sonho é uma coisa que só é mesmo interessante pra ter e contar pro terapeuta…)

  • intestino do espírito

    Tem um fio nas costas das coisas, o camarão é o exemplo, é a materialização do que Deus fez só em pensamento: nesse fio fica a alma (também feita de excremento).

  • eclipse do apocalipse

    O preconceito contra evangélicos está longe de ser um problema no Brasil, mas isso não quer dizer que não exista. Ele se junta com discriminações sérias, principalmente contra pobres e contra pessoas que não (ou pouco) participaram da educação institucional, e um tanto de racismo, e aí sim vira uma coisa grave e que, além de machucar quem sofre, emburrece quem ignora, mas insiste em falar a respeito. Até aí, é o de sempre. Eu mesmo sou muito ignorante, talvez por isso Deus não tenha me dado dinheiro: pra que eu não saísse por aí buzinando bobagens. Mas Deus me deu dois dedos, um teclado, wi-fi e dinheiro, sim, o bastante pra pagar a hospedagem deste site, onde eu posso escrever o que quiser. Deus é bem sacana. Foi o que me ensinaram na escola dominical, mas com sinal invertido. Depois, a vida tratou de me virar do avesso.

  • o poeta como ente não administrativo

    A grande vantagem do texto curto: que, se é ruim, pelo menos é curto (quem disse isso?). Outra vantagem, totalmente relacionada: que, sendo curto, pode calmamente ser ruim. Eu adoro escrever poema ruim. Às vezes faço escolhas ruins de propósito. Não significa que eu pudesse fazer escolhas boas. Talvez eu gostasse do toque de Midas, que artista não gostaria?, que tudo que eu escrevesse fosse clássico, iconoclástico, inesquecível, importante. Mas a história de Midas tá aí pra prevenir a vaidade, e tanta coisa é melhor que o ouro. La vita è bella perché è varia. No que me concerne, no que eu acho que de melhor tenho a oferecer pro mundo, do nariz eu tiro só meleca mesmo.

  • cinco minutos

    Um namorado, na faculdade, dizia que queria ler todos os romances do José de Alencar antes de chegar nos 30 anos. Nem ele fez isso, nem eu. Se bem que eu nunca quis. Achei que era uma boa meta pra estudante, mas meu ranço do Alencar sempre falou mais alto. E agora, aos 40, comecei a ler as obras completas dele. Não amadureci, mas cansei: deixei o ranço de lado.

    Cinco minutos é muito engraçado. Lógico que tem todo o pacote boy lixo alencariano, mas não dá pra negar que a bicha tem C.U.N.T. Além de todo o interesse histórico (as tópicas do romantismo usadas quase didaticamente, etc.), é bonito como os temas do atraso e do tempo breve vão se desenvolvendo, se repetindo, se multiplicando na trama. Capaz que seja mais interessante do que parece também pro nosso século ansioso.

  • apagada

    O que fica da gente é a memória, a pegada de carbono, o amor dado ao outro, provocado, sentido, as histórias e moléculas se desfazendo, o chorume, as cinzas, o futuro imaginado, a imaginação vibrando na linha fina das ondas gravitacionais, o peso no planeta, o peso do pecado, o efeito borboleta, o espírito eterno, fogo tolo, não sei o que fica da gente.

  • lamentações

    Se eu tivesse uma esposa, escreveria mais. É horrível mas é verdade. Ou uma faxineira, uma cozinheira. Por isso tem menos mulheres escritoras na história, no mundo. Hashtag Silvia Federici. Mas vim ser viado, o que tem seu charme. Meu banheiro é imundo. O da minha vó também era. Ela era porca, mas agora eu penso: era autônoma. Eu amava muito a minha avó e cada vez que ressignifico ela amo mais. Talvez porque ela então se aproxime mais do que eu gostaria que ela fosse, agora que ela morreu e a vida não atrapalha. Ninguém da minha família inicial era escritoure. Minha mãe era escrevente, o que é quase a mesma coisa. E minha vó tinha imaginação, o que era mais parecido ainda. Foi diagnosticado como esquizofrenia, mas é parecido. Eu não sou louco. Sou louca, o que é quase igual, mas é bem diferente. Queria ter mais tempo pra escrever.

  • desatualizado

    É difícil ser contemporâneo, porque é uma questão de timing, que é uma palavra difícil de coincidir em português. Tudo é difícil, depende só do momento. Um dos lugares-comuns da velhice é o do sujeito estrangeiro na própria terra, a pessoa que olha ao redor e não reconhece nada, mesmo que não tenha saído do lugar. O trem do tempo segue andando, mas a gente vai ficando cada vez mais pra trás. Pode estar dentro dele, mas ele passa pela gente. Mas, mas, mas. Cada coisa tem seu tempo, e ele é um reloginho muscular, camuflado em corpo, dentro da cada coisa.

  • dia do orgulho

    Não sei se mais me irrita, diverte ou dá tesão
    o misto de constrangimento, desconcerto e pavor
    do homem hétero no parque
    quando um cachorro monta em cima do cachorro
    macho dele.