• escala

    Terceiro dia de feriado. Amanhã é o último. Por que não temos mais mártires? Cadê a vagabundagem brasileira que me prometeram? “Porque aqui ninguém quer trabalhar, tem muito feriado, blá-blá-blá.” E eu tendo que andar um passo de cada vez nos dias úteis pra não ter outro burnout. E isso porque minha escala é 5×2. A CLT é boa e não é o bastante. Cadê a vagabundagem que me prometeram?

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    É muito bom reclamar no blogue. Antes do Twitter era assim que a gente fazia. Nós, os fenícios. Sem ninguém curtindo.

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    Meu vô uma vez disse que a vida dele começou com 38 anos. Não sei no que ele trabalhava antes disso. Que eu me lembre, a história era: com 38 anos ele arranjou um caminhão e ia todo dia às 3 da manhã na serra buscar tronco de árvore. Carregava o caminhão, ficava com a mão cheia de bolhas e farpas. Não sei quem cortava a árvore, não era ele. Com isso, juntou dinheiro pra comprar um ponto de táxi. Aí sim a vida ficou mais tranquila. Ainda lembro de quando o vô e os tios e os primos e o meu pai, um monte de homem da família trabalhava com táxi. Meu vô nascido no Brasil de pais imigrantes que receberam muita terra do governo. Tudo camponês pobre trazido pra embranquecer (Italians aren’t white, mas era o suficiente) e preencher o posto de classe média do país. Às vezes a gente tava passeando e ele falava com orgulho: “Isso aqui era tudo terra dos Visnardi”. Então por que a gente não é rico? “Naquele tempo terra não valia nada.” Mas sempre teve casa própria.

  • sexta-feira da paixão

    Já tive mil blogues. Quando ser encontrado era um desejo, mas a gente usava pseudônimo. A identidade real podia ser qualquer coisa, mas sempre vinha do silêncio barulhento de dentro, ecoando no som do modem que discava.

    Quarentei e fiquei mais nostálgico do que o Saturno regente de sempre. Por isso que dizem pra não confiar em ninguém com mais de trinta.

    Depois dos quinze, minha vida foi bastante on-line, millennial style. Por sorte e precariedade das tecnologias aqueles blogues do começo do século sumiram todos. Quando a internet virou um beco sem saída, comecei a deixar cartas anônimas nas ruas, no transporte público, mais ou menos como deixava bilhetes anônimos nos livros que pegava na biblioteca da cidade quando ainda não existia internet e eu não tinha comido lagosta. Mais ou menos, imagino, como naquele poema do Drummond, “me exponho nas vitrines porque preciso de todos”, algo assim.

    Cada tempo com sua vitrine.

    Agora uso o nome civil, inclusive o sobrenome paterno. Meu terapeuta parece que acha que isso é um grande progresso, talvez seja. O “progresso”, vejam bem, é que nos trouxe até aqui, mas a vida é felizmente imprevisível, um tantinho. Jesus sabia que ia ser esculachado e mesmo assim ficou surpreso.

    Quem sabe num futuro próximo a gente ressuscite com um nome novo e um coração sagrado. Assuste as beatas, despiste o governo, mostre os buracos pra galera e ascenda belíssima e domical, vestido limpo, com pombinhas e anjinhos levando pulgas pras Alturas, amém.