• leituras

    Livros de Victor Heringer e Cruz e Souza sobre mesa de plástico branca

    Esse ano, até agora, só consegui ler um livro inteiro. Sem contar os trinta livros que devo ter lido pro trabalho, já que meu trabalho é ler livros. Mas são leituras diferentes. Dá pra revisar um texto sem ler ele. E não dá pra ler um texto revisando ele. Deve ter quem faça autópsia e trepe ao mesmo tempo, mas não é minha praia.

    Pra tentar trepar até o final, tirei esse Vida desinteressante da prateleira. A comediante Michelle Buteau tem uma piada de que, depois dos 40, a gente começa a calcular como vai cair. Eu comecei a fazer isso depois que levei dois tombos na quarentena, apenas por estar de pé, e levei dois anos pra me recuperar. Ando muito devagar agora, e é com o mesmo cuidado que me aproximo das coisas tristes. Não quero cair não.

    Já o Cruz e Souza é uma leitura que tá levando meses, mas não desisto. Desses poetas que a gente só conhece pra escola e, quando se achega, faz uma nova amizade (nos 30 minutos que consigo ter amigos, enquanto como minha marmita).

  • marketing

    Eu nem me importo com o preço aviltante do antidepressivo, de tão bem que ele funciona.

  • playlist, tristeza de outono

    Golpes baixos para chorar na entressafra do antidepressivo.

    1. The Fairest of the Seasons _ Nico
    2. Paralelas _ Belchior
    3. Pô _ Celeste
    4. Onna no Blues _ Keiko Fuji
    5. Uns versos _ Adriana Calcanhoto
    6. In a Sentimental Mood _ Duke Ellington; John Coltrane
    7. Rosa _ Rodrigo Leão; Rosa Passos
    8. Ausencia _ Cesária Evora; Goran Bregović
    9. Lágrima _ Amália Rodrigues
    10. La gata bajo la lluvia _ Rocío Durcal
    11. Músico simples _ Johhny Alf
    12. Yugure _ Lamp
    13. Hora da razão _ Batatinha
  • hipótese absurda

    “O escritor quer ser lido”, repetia Hilda Hilst enquanto driblava todas as possibilidades de isso acontecer. Talvez o escritor não queira ser lido. A pessoa quer ser amada, incensada, aceita pela mãe e por Jesus, que nunca vêm. Quer ter uma vida mais fácil do que a vida tão difícil, uma grana de direitos autorais caía bem, mas o escritor o que quer é escrever, e quem lê esses escritos coloca eles em risco de não valerem nada. O texto vale tudo pra quem escreve. Pra quem lê, pode ser um salvador, mas também pode ser uma pedra no caminho ou , hipótese absurda, motivo de bocejo, riso, indiferença. Um nada. O ser humano, pelado ao relento, quer muita coisa. Mas o escritor só quer ser deixado em paz.

  • linkedin

    Aquele verso da Ana C., “agora não sou mais severa e ríspida, agora sou profissional”. é irônico, mas também não é. Um currículo que se leva a sério é o que não se leva a sério. É o único jeito de uma poeta ter emprego.

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    Carolina Maria de Jesus dizia que preferia catar papel na chuva do que trabalhar de doméstica, que era a única outra opção. Joan Brossa, dizem, fingia surtar e ser maluco pra não ter que trabalhar. Sempre lembro dessa história. E da Maura Lopes Cançado. Parece que ser maluco raramente compensa.

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    Teve uma hora que eu tive que pensar: então vou ser escritor? “Escritor” como profissão. Às vezes eu coloco “poeta” no campo “profissão” em algum formulário ou contrato, mas é só porque acho engraçado. Também porque é verdade. Mas teve uma hora que eu pensei no que significaria ser “escritor” e pensei: deus me livre escrever pra Folha de São Paulo. Cuspo pra cima mesmo. (A gente se agarra em cada naco de dignidade…)

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    Um dos meus melhores amigos me pediu pra escrever o posfácio do livro de poemas dele. Eu não sabia que ele escrevia poesia. Nem ele. Fiquei muito feliz não só com o convite, mas que ele tava fazendo versinhos. Tenho até doutorado em literatura e a casa entulhada de livros. E acho poesia uma bobagem. Mas também é a única coisa que importa. Acho muito difícil navegar nessas duas verdades, que são simultâneas, opostas, não excludentes. No final das contas, não tenho dúvidas de que, “quanto à literatura, mais vale um cachorro vivo”. Mas, além de não precisarmos chegar a tanto, um poema é quase um cachorro vivo. E o resto da vida é chutar cachorro morto. (Dito isso, to quase uma semana atrasado pra entregar o posfácio. Os poemas dele são lindos.)

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    Depois de terminar uma das autobiografias do João Silvério Trevisan, dei de ler os diários do Al Berto. Sem sadismo, gosto de ver como os outros sofrem. Sofrer também é um aprendizado. A gente acha que chorar é um ato espontâneo e natural, mas mesmo o primeiro choro precisou de um tapa na bunda pra começar a acontecer. E, depois disso, um constante estudo. De como chorar melhor.

  • escala

    Terceiro dia de feriado. Amanhã é o último. Por que não temos mais mártires? Cadê a vagabundagem brasileira que me prometeram? “Porque aqui ninguém quer trabalhar, tem muito feriado, blá-blá-blá.” E eu tendo que andar um passo de cada vez nos dias úteis pra não ter outro burnout. E isso porque minha escala é 5×2. A CLT é boa e não é o bastante. Cadê a vagabundagem que me prometeram?

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    É muito bom reclamar no blogue. Antes do Twitter era assim que a gente fazia. Nós, os fenícios. Sem ninguém curtindo.

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    Meu vô uma vez disse que a vida dele começou com 38 anos. Não sei no que ele trabalhava antes disso. Que eu me lembre, a história era: com 38 anos ele arranjou um caminhão e ia todo dia às 3 da manhã na serra buscar tronco de árvore. Carregava o caminhão, ficava com a mão cheia de bolhas e farpas. Não sei quem cortava a árvore, não era ele. Com isso, juntou dinheiro pra comprar um ponto de táxi. Aí sim a vida ficou mais tranquila. Ainda lembro de quando o vô e os tios e os primos e o meu pai, um monte de homem da família trabalhava com táxi. Meu vô nascido no Brasil de pais imigrantes que receberam muita terra do governo. Tudo camponês pobre trazido pra embranquecer (Italians aren’t white, mas era o suficiente) e preencher o posto de classe média do país. Às vezes a gente tava passeando e ele falava com orgulho: “Isso aqui era tudo terra dos Visnardi”. Então por que a gente não é rico? “Naquele tempo terra não valia nada.” Mas sempre teve casa própria.

  • sexta-feira da paixão

    Já tive mil blogues. Quando ser encontrado era um desejo, mas a gente usava pseudônimo. A identidade real podia ser qualquer coisa, mas sempre vinha do silêncio barulhento de dentro, ecoando no som do modem que discava.

    Quarentei e fiquei mais nostálgico do que o Saturno regente de sempre. Por isso que dizem pra não confiar em ninguém com mais de trinta.

    Depois dos quinze, minha vida foi bastante on-line, millennial style. Por sorte e precariedade das tecnologias aqueles blogues do começo do século sumiram todos. Quando a internet virou um beco sem saída, comecei a deixar cartas anônimas nas ruas, no transporte público, mais ou menos como deixava bilhetes anônimos nos livros que pegava na biblioteca da cidade quando ainda não existia internet e eu não tinha comido lagosta. Mais ou menos, imagino, como naquele poema do Drummond, “me exponho nas vitrines porque preciso de todos”, algo assim.

    Cada tempo com sua vitrine.

    Agora uso o nome civil, inclusive o sobrenome paterno. Meu terapeuta parece que acha que isso é um grande progresso, talvez seja. O “progresso”, vejam bem, é que nos trouxe até aqui, mas a vida é felizmente imprevisível, um tantinho. Jesus sabia que ia ser esculachado e mesmo assim ficou surpreso.

    Quem sabe num futuro próximo a gente ressuscite com um nome novo e um coração sagrado. Assuste as beatas, despiste o governo, mostre os buracos pra galera e ascenda belíssima e domical, vestido limpo, com pombinhas e anjinhos levando pulgas pras Alturas, amém.