• mostra a tua cara

    O governo Lula tá igual a novela das nove: um remake ok, mas capenga. Deveria valer tudo, vale pouco. Os acertos são bons o suficiente, mas no geral não dá muita vontade de acompanhar. Falta coragem, falta atualizar muita coisa no enredo. Comparando com a concorrência, com certeza é o que tem de melhor no horário. Mesmo assim, cadê o tesão de ligar a TV?

  • fulano

    Não tem nada que eu odeie mais no mundo (o racismo? o sistema capitalista? o apocalipse climático? a falência da hipérbole?) do que escrever minibio, os textinhos quase sempre em terceira pessoa que apresentam o palestrante, o autor, aquela bicha ali. Quem se define se limita, mas nem é isso. Também não gosto de me apresentar em situações sociais numa frase curta, mas nessas a gagueira dribla a afirmação, e dá pra rir. Eu gosto de dar risada.

    Outro dia uma pessoa me perguntou o que eu faço. Talvez se eu tivesse uma profissão a resposta fosse fácil. Mas minha vida tem sido ficar de saco cheio e abandonar trabalhos precários em busca de outros trabalhos precários. Num aplicativo de pegação, uma vez respondi “sou estudante” e a gay anônima do outro lado perguntou “com essa idade?”. Se for pra explicar a resposta, melhor me safar com outra.

    Pra tal pessoa, gaguejei “sou casado, tenho dois cachorros” e a resposta não convenceu, apesar de me parecer muito boa. Quando eu era criança, na classe média do interior do estado, ser casado era o que definia o sucesso do adulto. Nunca pensei que eu fosse querer me aproveitar disso. E pior: sem conseguir.

    Quando pude escrever uma minibio nos meus próprios termos, foi só: “Fulano nasceu no ano tal em tal lugar”. Já foi uma grande conquista de anos de terapia, porque por muito tempo eu nem quis ter nome. Hoje aceito.

    Em todo caso, acho muito desagradável ter que cacarejar essas coisas. A afirmação do eu é uma distração entediante. E sempre preciso fazer, especialmente pra conseguir novos trabalhos precários. Ossos do ofício, a propaganda é a alma do negócio. Odeio propaganda, odeio negócios. Gosto de roer outros ossos. Mas tenho meu marido e os dois cachorros, que me identificam pelo cheiro.

  • playlist, alegria de outono

    Panguá franzindo a língua

    Dançandinho com dor de garganta.

    1. Otokobore _ Fuyumi Sakamoto
    2. Boemia do sono _ Angela Ro Ro
    3. Enquanto Deus consentir _ Cartola
    4. Sincerità _ Arisa
    5. Heaven Is a Place on Earth _ Belinda Carlisle
    6. Abracadabra _ Lady Gaga
    7. Baby Blue _ Fishmans
    8. Agora ninguém chora mais _ Erasmo Carlos
    9. Fantastic Woman _ Junko Ohashi
    10. E tome polca… _ Angela Ro Ro
    11. Paper Bag _ Fiona Apple
    12. Dias melhores virão _ Rita Lee
    13. Blurring Time _ Bells Larsen
  • vale tudo

    Eu acho que to usando minha camiseta boa. Meu marido me olha e pergunta se eu vou sair de pijama.

    *

    Não consigo assistir novela no horário da novela, então resolvi acompanhar os cortes e memes.

    Minha mãe não entende o que eu acho tão engraçado na Odete Roitman. Eu não entendo por que só eu casco o bico.

    Tenho um tanto de nostalgia do tempo que só havia uma tela na nossa frente. O que já era um absurdo, uma violência contra o tempo do corpo, que evoluiu durante centenas de milhares de anos pra ser mais lento que o videoteipe.

    Hoje todo mundo tem crise de ansiedade, e dona Odete fala maldades preguiçosas com voz mole de Lexotan e aquele capacete de laquê. Pode não ser a vilã que precisamos, mas com certeza é a vilã que queremos.

    *

    Ritual de dia útil: um pouco antes de começar a chorar ou quebrar as coisas, eu respiro fundo, encho a nonagésima xícara de café e começo a procurar outro emprego. Eventualmente, entre vagas arrombadas, acabo achando que meu trabalho ainda é bom, ainda é o menos ruim, consideradas as alternativas. A vida é muito indigna no sistema capitalista. Então ponho uma playlist de city pop no fone de ouvido e volto a — preencher planilha, revisar texto, apertar porca e parafuso.

  • desperdício

    Do mesmo jeito que ninguém morre de véspera, não existe desperdício de vida. É mentira, porque muita gente morre muito antes do que deveria, talvez tenha gente que exceda o tempo possível, com certeza o tempo desejado. Mas desperdiçar a vida às vezes é o jeito justo de viver, o ajustado, no caso, o desajuste. Infelizmente a gente vive nos tempos da produtividade e não tem como saber como seria a nossa vida se não fosse contada em feitos, se pudesse nem ser contada. Caso não desaguasse nunca no inorgânico. Quem sabe algum macaco anônimo nunca encontrado na mata tenha esse tipo de experiência. Sentindo as coceiras dele, se masturbando e morrendo como Deus manda.

  • leituras

    Livros de Victor Heringer e Cruz e Souza sobre mesa de plástico branca

    Esse ano, até agora, só consegui ler um livro inteiro. Sem contar os trinta livros que devo ter lido pro trabalho, já que meu trabalho é ler livros. Mas são leituras diferentes. Dá pra revisar um texto sem ler ele. E não dá pra ler um texto revisando ele. Deve ter quem faça autópsia e trepe ao mesmo tempo, mas não é minha praia.

    Pra tentar trepar até o final, tirei esse Vida desinteressante da prateleira. A comediante Michelle Buteau tem uma piada de que, depois dos 40, a gente começa a calcular como vai cair. Eu comecei a fazer isso depois que levei dois tombos na quarentena, apenas por estar de pé, e levei dois anos pra me recuperar. Ando muito devagar agora, e é com o mesmo cuidado que me aproximo das coisas tristes. Não quero cair não.

    Já o Cruz e Souza é uma leitura que tá levando meses, mas não desisto. Desses poetas que a gente só conhece pra escola e, quando se achega, faz uma nova amizade (nos 30 minutos que consigo ter amigos, enquanto como minha marmita).

  • marketing

    Eu nem me importo com o preço aviltante do antidepressivo, de tão bem que ele funciona.

  • playlist, tristeza de outono

    Golpes baixos para chorar na entressafra do antidepressivo.

    1. The Fairest of the Seasons _ Nico
    2. Paralelas _ Belchior
    3. Pô _ Celeste
    4. Onna no Blues _ Keiko Fuji
    5. Uns versos _ Adriana Calcanhoto
    6. In a Sentimental Mood _ Duke Ellington; John Coltrane
    7. Rosa _ Rodrigo Leão; Rosa Passos
    8. Ausencia _ Cesária Evora; Goran Bregović
    9. Lágrima _ Amália Rodrigues
    10. La gata bajo la lluvia _ Rocío Durcal
    11. Músico simples _ Johhny Alf
    12. Yugure _ Lamp
    13. Hora da razão _ Batatinha
  • hipótese absurda

    “O escritor quer ser lido”, repetia Hilda Hilst enquanto driblava todas as possibilidades de isso acontecer. Talvez o escritor não queira ser lido. A pessoa quer ser amada, incensada, aceita pela mãe e por Jesus, que nunca vêm. Quer ter uma vida mais fácil do que a vida tão difícil, uma grana de direitos autorais caía bem, mas o escritor o que quer é escrever, e quem lê esses escritos coloca eles em risco de não valerem nada. O texto vale tudo pra quem escreve. Pra quem lê, pode ser um salvador, mas também pode ser uma pedra no caminho ou , hipótese absurda, motivo de bocejo, riso, indiferença. Um nada. O ser humano, pelado ao relento, quer muita coisa. Mas o escritor só quer ser deixado em paz.

  • linkedin

    Aquele verso da Ana C., “agora não sou mais severa e ríspida, agora sou profissional”. é irônico, mas também não é. Um currículo que se leva a sério é o que não se leva a sério. É o único jeito de uma poeta ter emprego.

    *

    Carolina Maria de Jesus dizia que preferia catar papel na chuva do que trabalhar de doméstica, que era a única outra opção. Joan Brossa, dizem, fingia surtar e ser maluco pra não ter que trabalhar. Sempre lembro dessa história. E da Maura Lopes Cançado. Parece que ser maluco raramente compensa.

    *

    Teve uma hora que eu tive que pensar: então vou ser escritor? “Escritor” como profissão. Às vezes eu coloco “poeta” no campo “profissão” em algum formulário ou contrato, mas é só porque acho engraçado. Também porque é verdade. Mas teve uma hora que eu pensei no que significaria ser “escritor” e pensei: deus me livre escrever pra Folha de São Paulo. Cuspo pra cima mesmo. (A gente se agarra em cada naco de dignidade…)

    *

    Um dos meus melhores amigos me pediu pra escrever o posfácio do livro de poemas dele. Eu não sabia que ele escrevia poesia. Nem ele. Fiquei muito feliz não só com o convite, mas que ele tava fazendo versinhos. Tenho até doutorado em literatura e a casa entulhada de livros. E acho poesia uma bobagem. Mas também é a única coisa que importa. Acho muito difícil navegar nessas duas verdades, que são simultâneas, opostas, não excludentes. No final das contas, não tenho dúvidas de que, “quanto à literatura, mais vale um cachorro vivo”. Mas, além de não precisarmos chegar a tanto, um poema é quase um cachorro vivo. E o resto da vida é chutar cachorro morto. (Dito isso, to quase uma semana atrasado pra entregar o posfácio. Os poemas dele são lindos.)

    *

    Depois de terminar uma das autobiografias do João Silvério Trevisan, dei de ler os diários do Al Berto. Sem sadismo, gosto de ver como os outros sofrem. Sofrer também é um aprendizado. A gente acha que chorar é um ato espontâneo e natural, mas mesmo o primeiro choro precisou de um tapa na bunda pra começar a acontecer. E, depois disso, um constante estudo. De como chorar melhor.