• pau mole

    Tem um charme, um quê de coisa
    monstra, sólida na modorra
    cetro de um deus que dorme
    e de repente solta porra

    arma descarregada, vida infensa
    milagre alcançado no nada
    matéria concentrada
    em mínima ofensa

  • marcos

    Às vezes eu esqueço qual o meu nome, talvez seja firula, lapso, demência, mas a impressão que tenho é mesmo que esqueço, talvez eu só não me reconheça. Nunca tive nenhuma relação de afeto com o meu nome. Na escola me ressentia, porque no dicionário eu não era o “Senhor dos cavalos”, nem um “Doce e gentil” sobrava pra mim. Era “Aquele que marca”, o que eu tomava literalmente, como se a minha sina fosse ficar carimbando (papel) a vida toda e além, na lápide, etc. Hoje acho divertido ter um nome substantivo comum, parece que me cabe. Apesar de que, entre os substantivos comuns, esse é pretensioso demais pro meu gosto. Acho que não quero que me chamem.

  • indigna

    Tenho pensado com mais frequência do que gostaria na indignidade da vida, e boa parte das minhas lamentações é despertada pela falta de dinheiro. Fico pensando “que mesquinhez”, porque o dinheiro tem uma dimensão moral que é difícil de espanar, mesmo que eu me esforce pra pensar de modo materialista. Penso: que bom seria me incomodar só com a mortalidade, a decadência e dissolução do corpo, olhar de manhã o imenso e me assombrar com a finitude do infinito. Mas minha lombar dói, chego no fim do mês sem poder comprar remédio, uma ansiedade me toma cada vez que a maquininha pede autorização pro sistema financeiro pagar o meu almoço, me dá vontade de chorar. Talvez, por inclinação de caráter, eu chorasse tanto quanto, mesmo se vivesse sem esses constrangimentos salariais. Saturno rege o mapa. E sei que não posso me responsabilizar pelo colapso do mundo sob o jugo do capitalismo. Mas que sonho seria: se só o que me perturbasse fosse a doença, o envelhecimento e a morte.

  • elegia de junho

    Quando a Janis Joplin grita
    eu quero viver assim
    num verso preciso da Hilda
    (“Que este amor não me cegue nem me siga”)
    equilíbrio improvável
    de gordura e açúcar no lámen
    na linguada do menino
    entre o sol e o gramado de um dia
    perfeito de outono
    com um amor eterno e passageiro do meu lado
    aquela cena aérea chapado
    do Iguaçu
    num filme de namorados

    Mas a vida é cheia de excessos
    indesejados, peidos
    errados num compasso
    desencaixado, o amor morre
    a Hilda e a Janis já morreram
    eu vou morrer também 
    mas não a tempo
    não no momento certo que 
    é o momento antes
    do término do tai chi
    que eu assisti esmagado de amor
    da dor prévia do adeus
    antes do corpo dele me esmagar
    e cuspir na minha boca
    um soneto improvisado
    e eu calçar o tênis e pegar a mochila
    e ele me levar pra rodoviária 
    pra gente nunca mais
    se encontrar

  • nodo norte em touro

    Tem gente que tá sempre atenta às intenções secretas dos encontros. Eu me sinto muito burro de não ver essas coisas. Quando você tá com uma amiga, chega uma pessoa e cumprimenta e conta algo e vai embora, e a sua amiga diz: você viu como fulana falou assim, mas na verdade estava falando assado? Eu, que sou escritor e formado em letras, fico com cara de ué.

    Também não sei interpretar sonho. Tive minha fase de entusiasmo com a psicanálise, mas depois desencanei. Faz tempo, o que me entretém no sonho é a imagem óbvia e dissonante. Talvez eu tivesse menos problemas com a minha mãe se exercitasse a leitura dos sinais do inconsciente. Mas tenho muita preguiça.

    Então, tenho assumido esse olhar tapado como uma escolha metodológica, o que talvez até seja, mas mesmo isso fica distante demais do meu alcance. Acho muito bom que todo mundo se interesse tanto pelo mundo. Eu, no que consigo, tenho tentado dormir.

  • inventário do irremediável

    Não sou amigo de nenhum ex-namorado. Alguns, não faz sentido: não tem mais nenhum tipo de sentimento ou convergência, só desejo o melhor, mas nem lembro deles. Um ou outro eu tenho raiva e às vezes tesão não canalizado, o que dá mais raiva. Pra esses eu também só desejo o melhor, mas quero que se explodam. Tem um que a gente teve um término doloroso e mal resolvido, mas que precisava terminar e não tinha outro jeito. Nesse eu penso com carinho e algum receio, vontade de sermos amigos. Mas amizade não é um ato voluntário. Talvez o primeiro passo: oi-tudo-bem-vamos-ser-amigues. Mas depois disso depende muito das correntes oceânicas.

    Tenho uma infinidade de ex-ficantes que desapareceram no tempo, cada um me deixou com um sentimento e uma doença venérea diferente. Esses é muito fácil amar e lembrar com carinho, porque não têm as nuances do convívio. Nesses casos, amor é o que a gente produz na nossa própria cabeça. É válido e limitado. Um deles morreu jovem enquanto a gente ficava, e essa é a única viuvez que eu vivi até agora. Odeio a sensação.

    Durante muito tempo, eu transava com quase todos os meus amigos. Hoje isso mudou. Talvez a casa de repouso que a gente planeja ter juntes não seja tão animada quanto projetamos. Me sinto velho e cansado. Sempre me senti assim. Tenho Saturno proeminente.

    No geral, não me arrependo de nada e cultivo com desleixo, mas ternura, as lembranças até as mais ruins. Tento gostar do presente, isso sim um esforço voluntário, quase sempre dá certo. Vivendo perigosamente as boas lembranças de depois.

    (Escrevo este texto porque topei com um ex na internet e veio aquela raiva vingativa. Desde que as coisas sejam gostosas ou motivo de escrita, to satisfeito.)

  • teologia

    Se não fosse pela doença e pelo trabalho, hoje era dia de aproveitar o último bloquinho do Carnaval. Fico em casa triste e ocupado, sem cachaça, sem marchinha. Coincidentemente ou não, é domingo, dia de se dedicar a Deus. Pelo menos antes do frango assado com batatas e da banheira do Gugu, ou depois da briga da família e das videocassetadas do Faustão.

    Deus tá aí o tempo todo, de tocaia.

    Depois que eu virei ateu e viado, meus tios-avós não podiam me ver que já começavam a perguntar, até antes do oi: mas como você pode não acreditar em Deus? Não sou praticante nem como ateu, nem como viado. Tudo é mais difícil e simples e complicado do que parece (ser libriano me entedia…). Mas hoje eu tenho simpatia por aqueles tios-avós insuportáveis. O medo sim que é onipresente.

    Poema "Teologia II", de Orides Fontela

    O poema é da Orides Fontela. E eu aqui, procrastinando.

  • doente

    Será que eu já teria morrido se não tivesse tratamento nenhum pro HIV? Sinto que a pergunta é cretina, mas também é legítima. Parece um desrespeito com todo mundo que sofre e sofreu com aids. Talvez seja. Mas o vírus é meu, silencioso que seja, e sussurra na dor de garganta e na imaginação. Talvez eu fosse sobreviver em todo o multiverso, independente da epidemia. Pode ser que eu só tenha doenças controláveis, chatas mas não morra nunca. Essa ideia me apavora.

  • minibiografias

    A camiseta do velho da loja de móveis velhos: You’re not important, get used to it. Ele varre a calçada nojenta do centro da cidade. Eu visto a minha camiseta da Madonna. Tenho tido vontade de usar estampas, coisa que antes não gostava, e antes disso, na adolescência, era só o que eu queria, mas não tinha dinheiro pra comprar roupa. Usava as camisas velhas do meu tio, sempre amassadas e destoantes. Eu queria ser tropicalista.


    O psiquiatra disse que acha que minha tristeza não é mais patológica. Eu reclamava do desencanto com a vida e o terapeuta sugeriu que tédio talvez seja arrogância e vice-versa. Aí disse: o néctar da vitória é servido no cálice do sofrimento. A gente gargalhou. A frase é do Fidel Castro, segundo ele.


    Minha vó pedia misericórdia pra Deus enquanto morria no leito do hospital e eu do lado, cuidador do turno, revisava um livro de seiscentas páginas sobre a dependência econômica da América Latina. Disseram que a revisão era urgente, não tinha como esperar. Minha vó morreu, passaram-se séculos antes do livro ser lançado. Disseram que os organizadores estavam mexendo nele ainda, então não tinha tanta pressa assim. Odeio a dependência econômica. Não sei o que é misericórdia. Penso muito em Deus.

  • vida cachorra

    O cachorro pode ser um símbolo da alegria, da amizade, da subserviência, da sujeira, do desamparo. O gato, sendo mais, se presta a menos. No dia a dia, o cachorro tem a exata medida do que simboliza, mas é na concretude sem imaginação que a gente acaba encontrando ele: se lambendo, se coçando, seguindo o focinho por aí. O cachorro é um bicho só ação e contato, mais verbo que substantivo. E, no fim, é só ele mesmo. Uma vida inteira e efêmera, igual à nossa quando dá certo.