Tem um charme, um quê de coisa
monstra, sólida na modorra
cetro de um deus que dorme
e de repente solta porra
arma descarregada, vida infensa
milagre alcançado no nada
matéria concentrada
em mínima ofensa
Tem um charme, um quê de coisa
monstra, sólida na modorra
cetro de um deus que dorme
e de repente solta porra
arma descarregada, vida infensa
milagre alcançado no nada
matéria concentrada
em mínima ofensa
Às vezes eu esqueço qual o meu nome, talvez seja firula, lapso, demência, mas a impressão que tenho é mesmo que esqueço, talvez eu só não me reconheça. Nunca tive nenhuma relação de afeto com o meu nome. Na escola me ressentia, porque no dicionário eu não era o “Senhor dos cavalos”, nem um “Doce e gentil” sobrava pra mim. Era “Aquele que marca”, o que eu tomava literalmente, como se a minha sina fosse ficar carimbando (papel) a vida toda e além, na lápide, etc. Hoje acho divertido ter um nome substantivo comum, parece que me cabe. Apesar de que, entre os substantivos comuns, esse é pretensioso demais pro meu gosto. Acho que não quero que me chamem.
Tenho pensado com mais frequência do que gostaria na indignidade da vida, e boa parte das minhas lamentações é despertada pela falta de dinheiro. Fico pensando “que mesquinhez”, porque o dinheiro tem uma dimensão moral que é difícil de espanar, mesmo que eu me esforce pra pensar de modo materialista. Penso: que bom seria me incomodar só com a mortalidade, a decadência e dissolução do corpo, olhar de manhã o imenso e me assombrar com a finitude do infinito. Mas minha lombar dói, chego no fim do mês sem poder comprar remédio, uma ansiedade me toma cada vez que a maquininha pede autorização pro sistema financeiro pagar o meu almoço, me dá vontade de chorar. Talvez, por inclinação de caráter, eu chorasse tanto quanto, mesmo se vivesse sem esses constrangimentos salariais. Saturno rege o mapa. E sei que não posso me responsabilizar pelo colapso do mundo sob o jugo do capitalismo. Mas que sonho seria: se só o que me perturbasse fosse a doença, o envelhecimento e a morte.
Quando a Janis Joplin grita
eu quero viver assim
num verso preciso da Hilda
(“Que este amor não me cegue nem me siga”)
equilíbrio improvável
de gordura e açúcar no lámen
na linguada do menino
entre o sol e o gramado de um dia
perfeito de outono
com um amor eterno e passageiro do meu lado
aquela cena aérea chapado
do Iguaçu
num filme de namorados
Mas a vida é cheia de excessos
indesejados, peidos
errados num compasso
desencaixado, o amor morre
a Hilda e a Janis já morreram
eu vou morrer também
mas não a tempo
não no momento certo que
é o momento antes
do término do tai chi
que eu assisti esmagado de amor
da dor prévia do adeus
antes do corpo dele me esmagar
e cuspir na minha boca
um soneto improvisado
e eu calçar o tênis e pegar a mochila
e ele me levar pra rodoviária
pra gente nunca mais
se encontrar
Tem gente que tá sempre atenta às intenções secretas dos encontros. Eu me sinto muito burro de não ver essas coisas. Quando você tá com uma amiga, chega uma pessoa e cumprimenta e conta algo e vai embora, e a sua amiga diz: você viu como fulana falou assim, mas na verdade estava falando assado? Eu, que sou escritor e formado em letras, fico com cara de ué.
Também não sei interpretar sonho. Tive minha fase de entusiasmo com a psicanálise, mas depois desencanei. Faz tempo, o que me entretém no sonho é a imagem óbvia e dissonante. Talvez eu tivesse menos problemas com a minha mãe se exercitasse a leitura dos sinais do inconsciente. Mas tenho muita preguiça.
Então, tenho assumido esse olhar tapado como uma escolha metodológica, o que talvez até seja, mas mesmo isso fica distante demais do meu alcance. Acho muito bom que todo mundo se interesse tanto pelo mundo. Eu, no que consigo, tenho tentado dormir.
Não sou amigo de nenhum ex-namorado. Alguns, não faz sentido: não tem mais nenhum tipo de sentimento ou convergência, só desejo o melhor, mas nem lembro deles. Um ou outro eu tenho raiva e às vezes tesão não canalizado, o que dá mais raiva. Pra esses eu também só desejo o melhor, mas quero que se explodam. Tem um que a gente teve um término doloroso e mal resolvido, mas que precisava terminar e não tinha outro jeito. Nesse eu penso com carinho e algum receio, vontade de sermos amigos. Mas amizade não é um ato voluntário. Talvez o primeiro passo: oi-tudo-bem-vamos-ser-amigues. Mas depois disso depende muito das correntes oceânicas.
Tenho uma infinidade de ex-ficantes que desapareceram no tempo, cada um me deixou com um sentimento e uma doença venérea diferente. Esses é muito fácil amar e lembrar com carinho, porque não têm as nuances do convívio. Nesses casos, amor é o que a gente produz na nossa própria cabeça. É válido e limitado. Um deles morreu jovem enquanto a gente ficava, e essa é a única viuvez que eu vivi até agora. Odeio a sensação.
Durante muito tempo, eu transava com quase todos os meus amigos. Hoje isso mudou. Talvez a casa de repouso que a gente planeja ter juntes não seja tão animada quanto projetamos. Me sinto velho e cansado. Sempre me senti assim. Tenho Saturno proeminente.
No geral, não me arrependo de nada e cultivo com desleixo, mas ternura, as lembranças até as mais ruins. Tento gostar do presente, isso sim um esforço voluntário, quase sempre dá certo. Vivendo perigosamente as boas lembranças de depois.
(Escrevo este texto porque topei com um ex na internet e veio aquela raiva vingativa. Desde que as coisas sejam gostosas ou motivo de escrita, to satisfeito.)
Se não fosse pela doença e pelo trabalho, hoje era dia de aproveitar o último bloquinho do Carnaval. Fico em casa triste e ocupado, sem cachaça, sem marchinha. Coincidentemente ou não, é domingo, dia de se dedicar a Deus. Pelo menos antes do frango assado com batatas e da banheira do Gugu, ou depois da briga da família e das videocassetadas do Faustão.
Deus tá aí o tempo todo, de tocaia.
Depois que eu virei ateu e viado, meus tios-avós não podiam me ver que já começavam a perguntar, até antes do oi: mas como você pode não acreditar em Deus? Não sou praticante nem como ateu, nem como viado. Tudo é mais difícil e simples e complicado do que parece (ser libriano me entedia…). Mas hoje eu tenho simpatia por aqueles tios-avós insuportáveis. O medo sim que é onipresente.

O poema é da Orides Fontela. E eu aqui, procrastinando.
Será que eu já teria morrido se não tivesse tratamento nenhum pro HIV? Sinto que a pergunta é cretina, mas também é legítima. Parece um desrespeito com todo mundo que sofre e sofreu com aids. Talvez seja. Mas o vírus é meu, silencioso que seja, e sussurra na dor de garganta e na imaginação. Talvez eu fosse sobreviver em todo o multiverso, independente da epidemia. Pode ser que eu só tenha doenças controláveis, chatas mas não morra nunca. Essa ideia me apavora.
A camiseta do velho da loja de móveis velhos: You’re not important, get used to it. Ele varre a calçada nojenta do centro da cidade. Eu visto a minha camiseta da Madonna. Tenho tido vontade de usar estampas, coisa que antes não gostava, e antes disso, na adolescência, era só o que eu queria, mas não tinha dinheiro pra comprar roupa. Usava as camisas velhas do meu tio, sempre amassadas e destoantes. Eu queria ser tropicalista.
O psiquiatra disse que acha que minha tristeza não é mais patológica. Eu reclamava do desencanto com a vida e o terapeuta sugeriu que tédio talvez seja arrogância e vice-versa. Aí disse: o néctar da vitória é servido no cálice do sofrimento. A gente gargalhou. A frase é do Fidel Castro, segundo ele.
Minha vó pedia misericórdia pra Deus enquanto morria no leito do hospital e eu do lado, cuidador do turno, revisava um livro de seiscentas páginas sobre a dependência econômica da América Latina. Disseram que a revisão era urgente, não tinha como esperar. Minha vó morreu, passaram-se séculos antes do livro ser lançado. Disseram que os organizadores estavam mexendo nele ainda, então não tinha tanta pressa assim. Odeio a dependência econômica. Não sei o que é misericórdia. Penso muito em Deus.
O cachorro pode ser um símbolo da alegria, da amizade, da subserviência, da sujeira, do desamparo. O gato, sendo mais, se presta a menos. No dia a dia, o cachorro tem a exata medida do que simboliza, mas é na concretude sem imaginação que a gente acaba encontrando ele: se lambendo, se coçando, seguindo o focinho por aí. O cachorro é um bicho só ação e contato, mais verbo que substantivo. E, no fim, é só ele mesmo. Uma vida inteira e efêmera, igual à nossa quando dá certo.