• minibiografias

    A camiseta do velho da loja de móveis velhos: You’re not important, get used to it. Ele varre a calçada nojenta do centro da cidade. Eu visto a minha camiseta da Madonna. Tenho tido vontade de usar estampas, coisa que antes não gostava, e antes disso, na adolescência, era só o que eu queria, mas não tinha dinheiro pra comprar roupa. Usava as camisas velhas do meu tio, sempre amassadas e destoantes. Eu queria ser tropicalista.


    O psiquiatra disse que acha que minha tristeza não é mais patológica. Eu reclamava do desencanto com a vida e o terapeuta sugeriu que tédio talvez seja arrogância e vice-versa. Aí disse: o néctar da vitória é servido no cálice do sofrimento. A gente gargalhou. A frase é do Fidel Castro, segundo ele.


    Minha vó pedia misericórdia pra Deus enquanto morria no leito do hospital e eu do lado, cuidador do turno, revisava um livro de seiscentas páginas sobre a dependência econômica da América Latina. Disseram que a revisão era urgente, não tinha como esperar. Minha vó morreu, passaram-se séculos antes do livro ser lançado. Disseram que os organizadores estavam mexendo nele ainda, então não tinha tanta pressa assim. Odeio a dependência econômica. Não sei o que é misericórdia. Penso muito em Deus.

  • vida cachorra

    O cachorro pode ser um símbolo da alegria, da amizade, da subserviência, da sujeira, do desamparo. O gato, sendo mais, se presta a menos. No dia a dia, o cachorro tem a exata medida do que simboliza, mas é na concretude sem imaginação que a gente acaba encontrando ele: se lambendo, se coçando, seguindo o focinho por aí. O cachorro é um bicho só ação e contato, mais verbo que substantivo. E, no fim, é só ele mesmo. Uma vida inteira e efêmera, igual à nossa quando dá certo.

  • fóssil difícil

    Meu pai viveu o bastante pra que eu tenha muita memória dele, mas agora to chegando na idade de ter convivido com a morte dele tantos anos quanto estive com o corpo vivo, e vai aí uma vida sem lembranças novas, de relação unilateral a menos que a gente conte os sonhos como visitas externas, o que talvez não seja o caso. Então já quase não sei o que é memória e o que foi experiência, ando esquecendo como diferenciar as duas coisas ou vivendo as memórias passadas cada vez mais como experiências presentes. O cheiro, a voz, a visão, a pele estão se dispersando assim como a tristeza e a raiva, talvez tudo tenha se amalgamado e sido coberto por camadas de tempo que estão escondendo o meu pai, subtraindo ele de mim, possivelmente guardando ele pra escavações futuras.

  • a vida é difícil, fácil 
    é sentar no pudim, na pica
    flácida do cansaço
    e da depressão, no colo da mãe 
    no seio da avó 
    murcho e pendente
    tipo os bagos do avô 
    tipo as bochechas
    da criança triste, do cachorro doente
    os ossos guardados na banha
    a vida é difícil, dura
    em meio a muita moleza

  • jeitos de acordar

    De susto, de pavor, num grito cômico de terror, ou devagar e amorosamente feito um felino se espreguiçando, às vezes ainda com sono, outras como se a vigília fosse ininterrupta e dormir apenas um plano na agenda, dá pra acordar doendo, parece que um caminhão me atropelou a gente diz porque acordar pode ser superlativo, e pode ser mínimo, e normal, que tem gente que acorda e nem percebe ou segue dormindo e acha que acordou, foi no banheiro, só sente a cama quando o mijo encharca o lençol que pensou ser a privada, tem despertares rudes, tem uns que são fofinhos, te beijam a face e fazem cosquinha no baixo ventre, você acorda pra um pesadelo, pra um sonho, pra mais um dia como todos os outros e, com sorte, vai dormir de novo.

  • escatológico

    É ainda escatológico, mas esse é o meu acesso a outro mundo: o pungente peido do cachorro que ronca do meu lado. Minha avó estertorando também se desfazia em merda, a gente nasce vive e morre esmerdeada, mas os cachorros, os gatos, as crianças pelo menos têm uma escala mais afável. Se bem que, quando se estertora, a gente acaba morrendo pequena, é o que parece. Os cachorros estão muito vivos, só são incivilizados mesmo, peidam cagam vomitam comem regurgitam de novo voltam a comer. Como se sempre estivessem morrendo ou nascendo ou vivendo.

  • depois do almoço

    Meu cachorro come o cocô antes que eu consiga pegar do chão pra jogar fora, eca, cocô. Se eu dou bronca, ele apressa o maxilar. Se eu tento tirar ele (o cachorro) do caminho, ele me morde. (Um mundo em que o cocô me mordesse com certeza seria pior.) Eu quero gritar de nojo, e logo depois o cachorro nem lembra mais o embate e me olha com aquela carinha fofa e a boquinha limpa que eu preciso lembrar de não deixar que me lamba. Dizem que boca de cachorro é a coisa mais suja do mundo, mais imunda que boca de lobo. Eu não paro de aprender com os cachorros: a dedicação intensa a quaquer coisa que esteja no foco. A menos que apareça uma coceira, aí o foco é a coceira. E agora ele tá aqui deitado do meu lado, e eu me derretendo de amor e tentando segurar o almoço que quer sair disparado pela minha goela cada vez que lembro da cena. Engraçado que muita gente também gosta de comer cocô. Tenho nojo, mas respeito. Minha avó dizia: o que é de gosto é regalo da vida.

  • criança

    O processo inflamatório contínuo de viver na cidade traumática. Mas a menina anda por aí desafiando o medo: ter catorze anos, também lembro. Não fui criança doente, então me pego preso no lugar-comum de associar juventude e saúde, envelhecimento e dor nas juntas, padecer da nostalgia tonta que não vê na frente o que no futuro se vai nostalgiar. A menina é grande e desbocada. Fico muito feliz que ela exista.

  • poética

    Tenho escrito muita poesia, todo resto da minha vida é um engasgo. Preciso ir no médico, fazer exame de sangue, perco a hora e a guia, faço uns versinhos. Trabalho, família, fodas, amigos: versinhos. Poesia não serve pra nada. A minha ainda menos, que não sou poeta. É uma afronta ao capitalismo, talvez, o que daria um alívio. Pena que veterinário é tão caro, livro e restaurante nem se fala. Vida, cara. Que caralho…

  • esse consolo

    A minha vida não é minha, mas é menos ainda de outras pessoas. A vida não é de ninguém que esteja com ela. Como Deus não existe, a vida fica vagando por aí trombada num corpo e em outros troços desajeitados de matéria. É só no tropeço que a gente encontra a própria vida. Levanta no susto, se limpa, emputece, vai pedir desculpas e ela já era. Já se desfez na vontade do encontro. Pirulitou.