A Bíblia é um livro múltiplo, a começar pelo título de biblioteca, coletivo de livros. E a evangélica é de um jeito, a católica, de outro, sabe Deus quantos escritos apócrifos, a Bíblia é um livro poroso, tropeçado, incompleto. Os anseios totalitários dos crentes mais aflitos querem que A Palavra seja una. Mas tem as traduções, as transcriações, as adaptações. Eu agora estou relendo o Pentateuco na edição mais xurumbrega que encontrei, uma virtual e gratuita na Amazon feita provavelmente por crentes imbuídos de missão mais do que conhecimento. E é lindo (descontando a sangria e a tortura dos séculos assinada por essa gente), mas é lindo o esforço, a vontade, a dedicação de fazer com que um texto floresça de múltiplas formas, se alastre, dê frutos. Engraçado, por isso ou por isso mesmo, que o texto não baste a esse povo. Que nem quando Deus disse a Moisés que dissesse por meio do dizer de Arão e ninguém botou fé. Talvez porque estivessem sofrendo muito com a opressão e o trabalho. O sofrimento impede a leitura: a gente fica só ecoando o próprio sofrimento.