Categoria: leituras

  • cave carmen

    Às vezes acontece, e é bom mas dolorido, desesperador tipo ficar muito doente: na hora da saúde se aproveita a saúde. Por contraste. Mas li a Maria do Carmo Ferreira e agora sinto sei acho que não sei mais nada, que nunca conheci nada, nasci de novo burro só que velho, o que é mais burro, se não pior. Nunca tive liberdade nem escrevi nada que prestasse, nunca amei, nunca sofri. Às vezes a gente inaugura a vida assim. Mas realmente to mais velho. Quanto ainda aguento? esse gozo grande e seco / a glosa do começo.

  • as palavras de deus

    A Bíblia é um livro múltiplo, a começar pelo título de biblioteca, coletivo de livros. E a evangélica é de um jeito, a católica, de outro, sabe Deus quantos escritos apócrifos, a Bíblia é um livro poroso, tropeçado, incompleto. Os anseios totalitários dos crentes mais aflitos querem que A Palavra seja una. Mas tem as traduções, as transcriações, as adaptações. Eu agora estou relendo o Pentateuco na edição mais xurumbrega que encontrei, uma virtual e gratuita na Amazon feita provavelmente por crentes imbuídos de missão mais do que conhecimento. E é lindo (descontando a sangria e a tortura dos séculos assinada por essa gente), mas é lindo o esforço, a vontade, a dedicação de fazer com que um texto floresça de múltiplas formas, se alastre, dê frutos. Engraçado, por isso ou por isso mesmo, que o texto não baste a esse povo. Que nem quando Deus disse a Moisés que dissesse por meio do dizer de Arão e ninguém botou fé. Talvez porque estivessem sofrendo muito com a opressão e o trabalho. O sofrimento impede a leitura: a gente fica só ecoando o próprio sofrimento.

  • cinco minutos

    Um namorado, na faculdade, dizia que queria ler todos os romances do José de Alencar antes de chegar nos 30 anos. Nem ele fez isso, nem eu. Se bem que eu nunca quis. Achei que era uma boa meta pra estudante, mas meu ranço do Alencar sempre falou mais alto. E agora, aos 40, comecei a ler as obras completas dele. Não amadureci, mas cansei: deixei o ranço de lado.

    Cinco minutos é muito engraçado. Lógico que tem todo o pacote boy lixo alencariano, mas não dá pra negar que a bicha tem C.U.N.T. Além de todo o interesse histórico (as tópicas do romantismo usadas quase didaticamente, etc.), é bonito como os temas do atraso e do tempo breve vão se desenvolvendo, se repetindo, se multiplicando na trama. Capaz que seja mais interessante do que parece também pro nosso século ansioso.