Autor: marcosvisnadi

  • inventário do irremediável

    Não sou amigo de nenhum ex-namorado. Alguns, não faz sentido: não tem mais nenhum tipo de sentimento ou convergência, só desejo o melhor, mas nem lembro deles. Um ou outro eu tenho raiva e às vezes tesão não canalizado, o que dá mais raiva. Pra esses eu também só desejo o melhor, mas quero que se explodam. Tem um que a gente teve um término doloroso e mal resolvido, mas que precisava terminar e não tinha outro jeito. Nesse eu penso com carinho e algum receio, vontade de sermos amigos. Mas amizade não é um ato voluntário. Talvez o primeiro passo: oi-tudo-bem-vamos-ser-amigues. Mas depois disso depende muito das correntes oceânicas.

    Tenho uma infinidade de ex-ficantes que desapareceram no tempo, cada um me deixou com um sentimento e uma doença venérea diferente. Esses é muito fácil amar e lembrar com carinho, porque não têm as nuances do convívio. Nesses casos, amor é o que a gente produz na nossa própria cabeça. É válido e limitado. Um deles morreu jovem enquanto a gente ficava, e essa é a única viuvez que eu vivi até agora. Odeio a sensação.

    Durante muito tempo, eu transava com quase todos os meus amigos. Hoje isso mudou. Talvez a casa de repouso que a gente planeja ter juntes não seja tão animada quanto projetamos. Me sinto velho e cansado. Sempre me senti assim. Tenho Saturno proeminente.

    No geral, não me arrependo de nada e cultivo com desleixo, mas ternura, as lembranças até as mais ruins. Tento gostar do presente, isso sim um esforço voluntário, quase sempre dá certo. Vivendo perigosamente as boas lembranças de depois.

    (Escrevo este texto porque topei com um ex na internet e veio aquela raiva vingativa. Desde que as coisas sejam gostosas ou motivo de escrita, to satisfeito.)

  • teologia

    Se não fosse pela doença e pelo trabalho, hoje era dia de aproveitar o último bloquinho do Carnaval. Fico em casa triste e ocupado, sem cachaça, sem marchinha. Coincidentemente ou não, é domingo, dia de se dedicar a Deus. Pelo menos antes do frango assado com batatas e da banheira do Gugu, ou depois da briga da família e das videocassetadas do Faustão.

    Deus tá aí o tempo todo, de tocaia.

    Depois que eu virei ateu e viado, meus tios-avós não podiam me ver que já começavam a perguntar, até antes do oi: mas como você pode não acreditar em Deus? Não sou praticante nem como ateu, nem como viado. Tudo é mais difícil e simples e complicado do que parece (ser libriano me entedia…). Mas hoje eu tenho simpatia por aqueles tios-avós insuportáveis. O medo sim que é onipresente.

    Poema "Teologia II", de Orides Fontela

    O poema é da Orides Fontela. E eu aqui, procrastinando.

  • doente

    Será que eu já teria morrido se não tivesse tratamento nenhum pro HIV? Sinto que a pergunta é cretina, mas também é legítima. Parece um desrespeito com todo mundo que sofre e sofreu com aids. Talvez seja. Mas o vírus é meu, silencioso que seja, e sussurra na dor de garganta e na imaginação. Talvez eu fosse sobreviver em todo o multiverso, independente da epidemia. Pode ser que eu só tenha doenças controláveis, chatas mas não morra nunca. Essa ideia me apavora.

  • minibiografias

    A camiseta do velho da loja de móveis velhos: You’re not important, get used to it. Ele varre a calçada nojenta do centro da cidade. Eu visto a minha camiseta da Madonna. Tenho tido vontade de usar estampas, coisa que antes não gostava, e antes disso, na adolescência, era só o que eu queria, mas não tinha dinheiro pra comprar roupa. Usava as camisas velhas do meu tio, sempre amassadas e destoantes. Eu queria ser tropicalista.


    O psiquiatra disse que acha que minha tristeza não é mais patológica. Eu reclamava do desencanto com a vida e o terapeuta sugeriu que tédio talvez seja arrogância e vice-versa. Aí disse: o néctar da vitória é servido no cálice do sofrimento. A gente gargalhou. A frase é do Fidel Castro, segundo ele.


    Minha vó pedia misericórdia pra Deus enquanto morria no leito do hospital e eu do lado, cuidador do turno, revisava um livro de seiscentas páginas sobre a dependência econômica da América Latina. Disseram que a revisão era urgente, não tinha como esperar. Minha vó morreu, passaram-se séculos antes do livro ser lançado. Disseram que os organizadores estavam mexendo nele ainda, então não tinha tanta pressa assim. Odeio a dependência econômica. Não sei o que é misericórdia. Penso muito em Deus.

  • vida cachorra

    O cachorro pode ser um símbolo da alegria, da amizade, da subserviência, da sujeira, do desamparo. O gato, sendo mais, se presta a menos. No dia a dia, o cachorro tem a exata medida do que simboliza, mas é na concretude sem imaginação que a gente acaba encontrando ele: se lambendo, se coçando, seguindo o focinho por aí. O cachorro é um bicho só ação e contato, mais verbo que substantivo. E, no fim, é só ele mesmo. Uma vida inteira e efêmera, igual à nossa quando dá certo.

  • fóssil difícil

    Meu pai viveu o bastante pra que eu tenha muita memória dele, mas agora to chegando na idade de ter convivido com a morte dele tantos anos quanto estive com o corpo vivo, e vai aí uma vida sem lembranças novas, de relação unilateral a menos que a gente conte os sonhos como visitas externas, o que talvez não seja o caso. Então já quase não sei o que é memória e o que foi experiência, ando esquecendo como diferenciar as duas coisas ou vivendo as memórias passadas cada vez mais como experiências presentes. O cheiro, a voz, a visão, a pele estão se dispersando assim como a tristeza e a raiva, talvez tudo tenha se amalgamado e sido coberto por camadas de tempo que estão escondendo o meu pai, subtraindo ele de mim, possivelmente guardando ele pra escavações futuras.

  • a vida é difícil, fácil 
    é sentar no pudim, na pica
    flácida do cansaço
    e da depressão, no colo da mãe 
    no seio da avó 
    murcho e pendente
    tipo os bagos do avô 
    tipo as bochechas
    da criança triste, do cachorro doente
    os ossos guardados na banha
    a vida é difícil, dura
    em meio a muita moleza

  • jeitos de acordar

    De susto, de pavor, num grito cômico de terror, ou devagar e amorosamente feito um felino se espreguiçando, às vezes ainda com sono, outras como se a vigília fosse ininterrupta e dormir apenas um plano na agenda, dá pra acordar doendo, parece que um caminhão me atropelou a gente diz porque acordar pode ser superlativo, e pode ser mínimo, e normal, que tem gente que acorda e nem percebe ou segue dormindo e acha que acordou, foi no banheiro, só sente a cama quando o mijo encharca o lençol que pensou ser a privada, tem despertares rudes, tem uns que são fofinhos, te beijam a face e fazem cosquinha no baixo ventre, você acorda pra um pesadelo, pra um sonho, pra mais um dia como todos os outros e, com sorte, vai dormir de novo.

  • escatológico

    É ainda escatológico, mas esse é o meu acesso a outro mundo: o pungente peido do cachorro que ronca do meu lado. Minha avó estertorando também se desfazia em merda, a gente nasce vive e morre esmerdeada, mas os cachorros, os gatos, as crianças pelo menos têm uma escala mais afável. Se bem que, quando se estertora, a gente acaba morrendo pequena, é o que parece. Os cachorros estão muito vivos, só são incivilizados mesmo, peidam cagam vomitam comem regurgitam de novo voltam a comer. Como se sempre estivessem morrendo ou nascendo ou vivendo.

  • depois do almoço

    Meu cachorro come o cocô antes que eu consiga pegar do chão pra jogar fora, eca, cocô. Se eu dou bronca, ele apressa o maxilar. Se eu tento tirar ele (o cachorro) do caminho, ele me morde. (Um mundo em que o cocô me mordesse com certeza seria pior.) Eu quero gritar de nojo, e logo depois o cachorro nem lembra mais o embate e me olha com aquela carinha fofa e a boquinha limpa que eu preciso lembrar de não deixar que me lamba. Dizem que boca de cachorro é a coisa mais suja do mundo, mais imunda que boca de lobo. Eu não paro de aprender com os cachorros: a dedicação intensa a quaquer coisa que esteja no foco. A menos que apareça uma coceira, aí o foco é a coceira. E agora ele tá aqui deitado do meu lado, e eu me derretendo de amor e tentando segurar o almoço que quer sair disparado pela minha goela cada vez que lembro da cena. Engraçado que muita gente também gosta de comer cocô. Tenho nojo, mas respeito. Minha avó dizia: o que é de gosto é regalo da vida.