Autor: marcosvisnadi

  • ao mestre com carinho

    To um tanto choroso, ontem teve homenagem ao João Adolfo Hansen na faculdade, logo depois de eu pegar meu último diploma emitido lá.

    O Hansen foi meu professor, quase virou meu orientador e eu quase virei editor dele. Depois o João virou pai da minha melhor amiga. Ver o meu grande mestre de chinelo enquanto a mãe da minha amiga falava “Joãozinho, vem almoçar” deu uma bugada boa na minha vida intelectual e afetiva.

    Ontem, numa sala de aula cheia de ex-alunes dele, senti falta antes de tudo do meu professor. É muito bom ter professorxs e alunes, é um tipo de relação muito esquisita: íntima e distante, afetuosa e profissional, de admiração e desprezo. Também é uma relação marcada pela morte, que tá entre nós o tempo todo. (O João falava muito da morte.)

  • bot

    parece que aqui predominam textos tristes.

    meu primeiro blogue era uma experiência de adolescente suicida, na internet discada.

    o psiquiatra me deu alta porque parei de tomar antidepressivo e fiquei numa boa. muito feliz de poder voltar a ser triste.

    penso “credo”, porque acredito muito na alegria. penso “tenho que escrever coisas mais alegres”.

    penso “‘tenho que’ nada”, e as coisas alegres faço em outros lugares.

    a capacidade de produção textual das LLMs tem dado um pinote no meu senso de identidade de escritore.

    não sei se to triste ou só calculando uma probabilidade.

  • sem melodia

    Da última vez que dei aula de redação pra adolescente, faz uns poucos anos, entendi o problema da concepção escolar de texto destes tempos: tudo pertence a um gênero decodificável e reproduzível. Às vezes fico triste com a minha solidão no mundo, depois penso que a opção pelo “fora do tom, sem melodia” teria consequências, mas ainda é a melhor escolha. Melhor pra quem? Tudo tenta vender o tempo todo, é difícil (requer esforço) lembrar de não querer o melhor, o mais barato, o que quer que seja. É difícil não querer vencer num jogo que eu não quero jogar. É difícil não jogar, que nem fazer um texto que não quer vender. Eu gostava muito da minha aluna, tenho saudades de dar aula pra ela.

  • o processo

    A experiência kafkiana do contemporâneo é o Neo acordando da Matrix pra ser entregador de aplicativo? O site fora do ar e você tendo que provar que é humano mil vezes, sendo negade todas elas, trouxeste a chave API? Andar pelas ruas do bairro sem encontrar ninguém, mas a cada esquina o rosto escaneado e enviado pra militares de Israel? Todo mundo on-line dizendo que você tá cancelade, mas não te dizem por quê? Certa manhã, você não acordou de sonos intranquilos, porque ninguém mais dorme, muito menos sonha?

  • poesia sem escrita

    Às vezes vem um ritmo, mas eu não sei fazer ritmo
    sou ruim da cabeça e doente do pé

    O esporão me eleva a altitudes impensáveis
    próximas demais do chão

    Balbucio umas palavras e escrevo nada
    veio um poema só casca

    A musa é assim preguiçosa ou, coitada,
    também ela é toda errada


    Vem ó musa
    escusa

    il ballo não baila
    na baixa

    laxa me fare
    Natasha

    così diammo close
    Katuxa

  • dor crônica

    Tenho sofrido muito em silêncio. Mesmo quando reclamo não é o bastante, o suficiente, não é exatamente a expressão do sofrimento. O médico me pergunta onde dói e só consigo apontar aproximadamente. Sei que é algum lugar do corpo, se eu tivesse tido boas lições de anatomia, talvez nem isso seja: porque mesmo os atlas são só aproximações, referências móveis de limites arbitrários. Talvez nem doa, embora eu ache que sim. Talvez nem seja sofrimento e isso que eu faço não seja silêncio. Talvez em algum lugar oblíquo esteja acontecendo um barulho novo, antitímpano.

  • pau mole

    Tem um charme, um quê de coisa
    monstra, sólida na modorra
    cetro de um deus que dorme
    e de repente solta porra

    arma descarregada, vida infensa
    milagre alcançado no nada
    matéria concentrada
    em mínima ofensa

  • marcos

    Às vezes eu esqueço qual o meu nome, talvez seja firula, lapso, demência, mas a impressão que tenho é mesmo que esqueço, talvez eu só não me reconheça. Nunca tive nenhuma relação de afeto com o meu nome. Na escola me ressentia, porque no dicionário eu não era o “Senhor dos cavalos”, nem um “Doce e gentil” sobrava pra mim. Era “Aquele que marca”, o que eu tomava literalmente, como se a minha sina fosse ficar carimbando (papel) a vida toda e além, na lápide, etc. Hoje acho divertido ter um nome substantivo comum, parece que me cabe. Apesar de que, entre os substantivos comuns, esse é pretensioso demais pro meu gosto. Acho que não quero que me chamem.

  • indigna

    Tenho pensado com mais frequência do que gostaria na indignidade da vida, e boa parte das minhas lamentações é despertada pela falta de dinheiro. Fico pensando “que mesquinhez”, porque o dinheiro tem uma dimensão moral que é difícil de espanar, mesmo que eu me esforce pra pensar de modo materialista. Penso: que bom seria me incomodar só com a mortalidade, a decadência e dissolução do corpo, olhar de manhã o imenso e me assombrar com a finitude do infinito. Mas minha lombar dói, chego no fim do mês sem poder comprar remédio, uma ansiedade me toma cada vez que a maquininha pede autorização pro sistema financeiro pagar o meu almoço, me dá vontade de chorar. Talvez, por inclinação de caráter, eu chorasse tanto quanto, mesmo se vivesse sem esses constrangimentos salariais. Saturno rege o mapa. E sei que não posso me responsabilizar pelo colapso do mundo sob o jugo do capitalismo. Mas que sonho seria: se só o que me perturbasse fosse a doença, o envelhecimento e a morte.

  • elegia de junho

    Quando a Janis Joplin grita
    eu quero viver assim
    num verso preciso da Hilda
    (“Que este amor não me cegue nem me siga”)
    equilíbrio improvável
    de gordura e açúcar no lámen
    na linguada do menino
    entre o sol e o gramado de um dia
    perfeito de outono
    com um amor eterno e passageiro do meu lado
    aquela cena aérea chapado
    do Iguaçu
    num filme de namorados

    Mas a vida é cheia de excessos
    indesejados, peidos
    errados num compasso
    desencaixado, o amor morre
    a Hilda e a Janis já morreram
    eu vou morrer também 
    mas não a tempo
    não no momento certo que 
    é o momento antes
    do término do tai chi
    que eu assisti esmagado de amor
    da dor prévia do adeus
    antes do corpo dele me esmagar
    e cuspir na minha boca
    um soneto improvisado
    e eu calçar o tênis e pegar a mochila
    e ele me levar pra rodoviária 
    pra gente nunca mais
    se encontrar