Meu pai viveu o bastante pra que eu tenha muita memória dele, mas agora to chegando na idade de ter convivido com a morte dele tantos anos quanto estive com o corpo vivo, e vai aí uma vida sem lembranças novas, de relação unilateral a menos que a gente conte os sonhos como visitas externas, o que talvez não seja o caso. Então já quase não sei o que é memória e o que foi experiência, ando esquecendo como diferenciar as duas coisas ou vivendo as memórias passadas cada vez mais como experiências presentes. O cheiro, a voz, a visão, a pele estão se dispersando assim como a tristeza e a raiva, talvez tudo tenha se amalgamado e sido coberto por camadas de tempo que estão escondendo o meu pai, subtraindo ele de mim, possivelmente guardando ele pra escavações futuras.
Autor: marcosvisnadi
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jeitos de acordar
De susto, de pavor, num grito cômico de terror, ou devagar e amorosamente feito um felino se espreguiçando, às vezes ainda com sono, outras como se a vigília fosse ininterrupta e dormir apenas um plano na agenda, dá pra acordar doendo, parece que um caminhão me atropelou a gente diz porque acordar pode ser superlativo, e pode ser mínimo, e normal, que tem gente que acorda e nem percebe ou segue dormindo e acha que acordou, foi no banheiro, só sente a cama quando o mijo encharca o lençol que pensou ser a privada, tem despertares rudes, tem uns que são fofinhos, te beijam a face e fazem cosquinha no baixo ventre, você acorda pra um pesadelo, pra um sonho, pra mais um dia como todos os outros e, com sorte, vai dormir de novo.
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escatológico
É ainda escatológico, mas esse é o meu acesso a outro mundo: o pungente peido do cachorro que ronca do meu lado. Minha avó estertorando também se desfazia em merda, a gente nasce vive e morre esmerdeada, mas os cachorros, os gatos, as crianças pelo menos têm uma escala mais afável. Se bem que, quando se estertora, a gente acaba morrendo pequena, é o que parece. Os cachorros estão muito vivos, só são incivilizados mesmo, peidam cagam vomitam comem regurgitam de novo voltam a comer. Como se sempre estivessem morrendo ou nascendo ou vivendo.
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depois do almoço
Meu cachorro come o cocô antes que eu consiga pegar do chão pra jogar fora, eca, cocô. Se eu dou bronca, ele apressa o maxilar. Se eu tento tirar ele (o cachorro) do caminho, ele me morde. (Um mundo em que o cocô me mordesse com certeza seria pior.) Eu quero gritar de nojo, e logo depois o cachorro nem lembra mais o embate e me olha com aquela carinha fofa e a boquinha limpa que eu preciso lembrar de não deixar que me lamba. Dizem que boca de cachorro é a coisa mais suja do mundo, mais imunda que boca de lobo. Eu não paro de aprender com os cachorros: a dedicação intensa a quaquer coisa que esteja no foco. A menos que apareça uma coceira, aí o foco é a coceira. E agora ele tá aqui deitado do meu lado, e eu me derretendo de amor e tentando segurar o almoço que quer sair disparado pela minha goela cada vez que lembro da cena. Engraçado que muita gente também gosta de comer cocô. Tenho nojo, mas respeito. Minha avó dizia: o que é de gosto é regalo da vida.
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criança
O processo inflamatório contínuo de viver na cidade traumática. Mas a menina anda por aí desafiando o medo: ter catorze anos, também lembro. Não fui criança doente, então me pego preso no lugar-comum de associar juventude e saúde, envelhecimento e dor nas juntas, padecer da nostalgia tonta que não vê na frente o que no futuro se vai nostalgiar. A menina é grande e desbocada. Fico muito feliz que ela exista.
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poética
Tenho escrito muita poesia, todo resto da minha vida é um engasgo. Preciso ir no médico, fazer exame de sangue, perco a hora e a guia, faço uns versinhos. Trabalho, família, fodas, amigos: versinhos. Poesia não serve pra nada. A minha ainda menos, que não sou poeta. É uma afronta ao capitalismo, talvez, o que daria um alívio. Pena que veterinário é tão caro, livro e restaurante nem se fala. Vida, cara. Que caralho…
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esse consolo
A minha vida não é minha, mas é menos ainda de outras pessoas. A vida não é de ninguém que esteja com ela. Como Deus não existe, a vida fica vagando por aí trombada num corpo e em outros troços desajeitados de matéria. É só no tropeço que a gente encontra a própria vida. Levanta no susto, se limpa, emputece, vai pedir desculpas e ela já era. Já se desfez na vontade do encontro. Pirulitou.
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cave carmen
Às vezes acontece, e é bom mas dolorido, desesperador tipo ficar muito doente: na hora da saúde se aproveita a saúde. Por contraste. Mas li a Maria do Carmo Ferreira e agora sinto sei acho que não sei mais nada, que nunca conheci nada, nasci de novo burro só que velho, o que é mais burro, se não pior. Nunca tive liberdade nem escrevi nada que prestasse, nunca amei, nunca sofri. Às vezes a gente inaugura a vida assim. Mas realmente to mais velho. Quanto ainda aguento? esse gozo grande e seco / a glosa do começo.
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crítica literária
O que é e não é boa literatura vai continuar sendo assunto escrito e falado até o antropoceno colapsar. Como se importasse. Mas importa, porque pega no nervo do afeto das pessoas, entre outros nervos mais mesquinhos. Minha irmã disse que não suporta Clarice Lispector e eu me assustei: sei que tem gente que não gosta, mas ela, que eu acho tão sensível e inteligente e tem tanta afinidade comigo, não gostar da minha escritora favorita… E o que ela criticou na Clarice é o mesmo, acho, que criticam em qualquer texto criticável. Eu mesmo leio coisas com raiva. Quando um poema não te fisga por dentro, tipo um gancho no peixe, tipo um pênis na próstata, em vez de querer morrer a morte boa, a gente quer matar a morte má. E assim começa a guerra.