Autor: marcosvisnadi

  • gosto é gosto

    Eu tive uma cachorra que adorava se esfregar em bosta na rua. A gente não podia bobear, de repente ela já tava esfregando o pescoço em alguma bosta.

    Tem aquela história da Hilda Hilst pedindo pro empregado dela tirar a bosta do cachorro do meio da sala. O empregado disse: bosta eu não pego não. E ela: por que não?, se eu, que sou doutora, pego. E ele: gosto é gosto, doutora.

  • lady miss warp

    A curiosidade não pressupõe a memória nem o conhecimento, mas aos poucos eu vou me familiarizando com a discografia da Nomiya Maki e entendendo melhor o contexto em que ela foi criando cada peça pra performar essa voz de leite e mel, de algodão úmido, perfeição Gal Costa com solidez Sinatra e contenção Astrud Gilberto, e uma elegância que parece arquetípica, caricatural quase, mas que se mantêm e se reinventa elegância em meio à parafernália pós-moderna, fazendo cover de si mesma. Vou escutando, fuçando sites, traduzindo as letras no trajeto do ônibus, e acho que a curiosidade é o primeiro acorde do amor.

  • dia seguinte

    Quantas obras-primas foram feitas em noites de insônia, também quantas porcarias. Quantos divórcios, quantas guerras começaram estouraram assim. Não há grãos de areia na praia tanto quanto punhetas e siriricas tocadas por querer dormir e não conseguir,

    e haja chá, leitinho, hidrelétricas pra manter as geladeiras abertas. É diferente de quem dorme no relento com medo da polícia, da matilha, da chuva, e de quem passava as noites na prisão de Salazar, com sirene tocando e cacetetes baldes d’água contra descanso. Você tem o conforto possível, o estritamente necessário, até mesmo o impensável – e não adianta. Nessas pensa e se eu separasse o céu e as águas, acendesse a luz, molhasse plantas e monstros marinhos? Sete noites insones depois, Ele pelo menos dormiu.

  • trapo de gato no sol

    Todo dia chegando no trabalho eu passava na mesma calçada e pensava “gente, um gato morto!”. Na primeira vez que isso aconteceu, já ia ficando triste e chegando perto pra observar o mistério da morte largado no cotidiano indiferente, quando percebi outro mistério: o gato se mexia. Foi assim que conheci a Renata.

    Minha amiga que disse que ouviu o papo: do homem na frente da loja dizendo pra outro: “Essa aqui é a Renata, ela tem 25 anos”. Então só podia ser a Renata mesmo: um trapo de gato, cheio de buracos calvos, largado no fiozinho de sol que os prédios deixam chegar na calçada suja e fedida dos Campos Elíseos. Todo dia, chegando no trabalho, eu pensava “meu deus, um gato morto!” antes de reparar que era o mesmo gato do dia anterior, só que em outra posição, ou ver um movimento lento de pulmão ou rabo e lembrar “Ah, é a Renata”. Ali deitada e aproveitando cada suspiro de vida, sem se incomodar com cachorros, carros nem gente que chegava perto pra fazer festinha. A Renata deitada no sol.

    Faz tempo que não vejo ela. Provavelmente morreu? Que é o destino de todas as gatas. Talvez tenha encontrado uma nesga de sol no quintal ou fugido pra campos mais elísios? Tanto ser vivo e não vivo desaparece dessas ruas que é difícil se importar com algum deles. Eu mesmo tento aproveitar o máximo de sol que posso, andando sempre no mesmo horário na mesma calçada, antes de entrar pro prédio escuro e pra luz branca do escritório.

  • o recalque da metrópole

    Tem uma infestação de escorpiões no bairro, o que tem originado conversas cheias de anedotas assustadoras. Eu sempre tive muito medo de bichos peçonhentos, parece um medo irracional, apesar de ser racional, apesar de não ser essa a questão. Lembrei do Casé Angatu falando que, quando aparece uma cobra na aldeia, o pessoal entende como um aviso, um diálogo, e você não mata o mensageiro. Pega a cobra com cuidado e joga ela longe, mas não mata.

    Já eu quero que todos os escorpiões e as baratas morram. Fico triste quando vejo um bicho seco ou tenho que eu mesmo tacar veneno em cima. Mas não sei lidar de outro jeito.

    Um amigo teve infestação de escorpião no prédio no centro de São Paulo e disse que não tinha o que fazer, não existe veneno contra escorpião e, se dedetizar, é pior: o inseticida mata as baratas, que são a comida deles, e aí eles vêm com tudo pra cima, com fome e vingança. Não sei se é verdade, mas as anedotas ensinam muita astrologia.

    Sei que esse caso, junto com ficar ouvindo muito Bad Gays, me deu vontade de reler o Boêmia dos ratos, da Sarah Schullman.

  • mostra a tua cara

    O governo Lula tá igual a novela das nove: um remake ok, mas capenga. Deveria valer tudo, vale pouco. Os acertos são bons o suficiente, mas no geral não dá muita vontade de acompanhar. Falta coragem, falta atualizar muita coisa no enredo. Comparando com a concorrência, com certeza é o que tem de melhor no horário. Mesmo assim, cadê o tesão de ligar a TV?

  • fulano

    Não tem nada que eu odeie mais no mundo (o racismo? o sistema capitalista? o apocalipse climático? a falência da hipérbole?) do que escrever minibio, os textinhos quase sempre em terceira pessoa que apresentam o palestrante, o autor, aquela bicha ali. Quem se define se limita, mas nem é isso. Também não gosto de me apresentar em situações sociais numa frase curta, mas nessas a gagueira dribla a afirmação, e dá pra rir. Eu gosto de dar risada.

    Outro dia uma pessoa me perguntou o que eu faço. Talvez se eu tivesse uma profissão a resposta fosse fácil. Mas minha vida tem sido ficar de saco cheio e abandonar trabalhos precários em busca de outros trabalhos precários. Num aplicativo de pegação, uma vez respondi “sou estudante” e a gay anônima do outro lado perguntou “com essa idade?”. Se for pra explicar a resposta, melhor me safar com outra.

    Pra tal pessoa, gaguejei “sou casado, tenho dois cachorros” e a resposta não convenceu, apesar de me parecer muito boa. Quando eu era criança, na classe média do interior do estado, ser casado era o que definia o sucesso do adulto. Nunca pensei que eu fosse querer me aproveitar disso. E pior: sem conseguir.

    Quando pude escrever uma minibio nos meus próprios termos, foi só: “Fulano nasceu no ano tal em tal lugar”. Já foi uma grande conquista de anos de terapia, porque por muito tempo eu nem quis ter nome. Hoje aceito.

    Em todo caso, acho muito desagradável ter que cacarejar essas coisas. A afirmação do eu é uma distração entediante. E sempre preciso fazer, especialmente pra conseguir novos trabalhos precários. Ossos do ofício, a propaganda é a alma do negócio. Odeio propaganda, odeio negócios. Gosto de roer outros ossos. Mas tenho meu marido e os dois cachorros, que me identificam pelo cheiro.

  • playlist, alegria de outono

    Panguá franzindo a língua

    Dançandinho com dor de garganta.

    1. Otokobore _ Fuyumi Sakamoto
    2. Boemia do sono _ Angela Ro Ro
    3. Enquanto Deus consentir _ Cartola
    4. Sincerità _ Arisa
    5. Heaven Is a Place on Earth _ Belinda Carlisle
    6. Abracadabra _ Lady Gaga
    7. Baby Blue _ Fishmans
    8. Agora ninguém chora mais _ Erasmo Carlos
    9. Fantastic Woman _ Junko Ohashi
    10. E tome polca… _ Angela Ro Ro
    11. Paper Bag _ Fiona Apple
    12. Dias melhores virão _ Rita Lee
    13. Blurring Time _ Bells Larsen
  • vale tudo

    Eu acho que to usando minha camiseta boa. Meu marido me olha e pergunta se eu vou sair de pijama.

    *

    Não consigo assistir novela no horário da novela, então resolvi acompanhar os cortes e memes.

    Minha mãe não entende o que eu acho tão engraçado na Odete Roitman. Eu não entendo por que só eu casco o bico.

    Tenho um tanto de nostalgia do tempo que só havia uma tela na nossa frente. O que já era um absurdo, uma violência contra o tempo do corpo, que evoluiu durante centenas de milhares de anos pra ser mais lento que o videoteipe.

    Hoje todo mundo tem crise de ansiedade, e dona Odete fala maldades preguiçosas com voz mole de Lexotan e aquele capacete de laquê. Pode não ser a vilã que precisamos, mas com certeza é a vilã que queremos.

    *

    Ritual de dia útil: um pouco antes de começar a chorar ou quebrar as coisas, eu respiro fundo, encho a nonagésima xícara de café e começo a procurar outro emprego. Eventualmente, entre vagas arrombadas, acabo achando que meu trabalho ainda é bom, ainda é o menos ruim, consideradas as alternativas. A vida é muito indigna no sistema capitalista. Então ponho uma playlist de city pop no fone de ouvido e volto a — preencher planilha, revisar texto, apertar porca e parafuso.

  • desperdício

    Do mesmo jeito que ninguém morre de véspera, não existe desperdício de vida. É mentira, porque muita gente morre muito antes do que deveria, talvez tenha gente que exceda o tempo possível, com certeza o tempo desejado. Mas desperdiçar a vida às vezes é o jeito justo de viver, o ajustado, no caso, o desajuste. Infelizmente a gente vive nos tempos da produtividade e não tem como saber como seria a nossa vida se não fosse contada em feitos, se pudesse nem ser contada. Caso não desaguasse nunca no inorgânico. Quem sabe algum macaco anônimo nunca encontrado na mata tenha esse tipo de experiência. Sentindo as coceiras dele, se masturbando e morrendo como Deus manda.