Todo dia chegando no trabalho eu passava na mesma calçada e pensava “gente, um gato morto!”. Na primeira vez que isso aconteceu, já ia ficando triste e chegando perto pra observar o mistério da morte largado no cotidiano indiferente, quando percebi outro mistério: o gato se mexia. Foi assim que conheci a Renata.
Minha amiga que disse que ouviu o papo: do homem na frente da loja dizendo pra outro: “Essa aqui é a Renata, ela tem 25 anos”. Então só podia ser a Renata mesmo: um trapo de gato, cheio de buracos calvos, largado no fiozinho de sol que os prédios deixam chegar na calçada suja e fedida dos Campos Elíseos. Todo dia, chegando no trabalho, eu pensava “meu deus, um gato morto!” antes de reparar que era o mesmo gato do dia anterior, só que em outra posição, ou ver um movimento lento de pulmão ou rabo e lembrar “Ah, é a Renata”. Ali deitada e aproveitando cada suspiro de vida, sem se incomodar com cachorros, carros nem gente que chegava perto pra fazer festinha. A Renata deitada no sol.
Faz tempo que não vejo ela. Provavelmente morreu? Que é o destino de todas as gatas. Talvez tenha encontrado uma nesga de sol no quintal ou fugido pra campos mais elísios? Tanto ser vivo e não vivo desaparece dessas ruas que é difícil se importar com algum deles. Eu mesmo tento aproveitar o máximo de sol que posso, andando sempre no mesmo horário na mesma calçada, antes de entrar pro prédio escuro e pra luz branca do escritório.