Categoria: diário

  • teologia

    Se não fosse pela doença e pelo trabalho, hoje era dia de aproveitar o último bloquinho do Carnaval. Fico em casa triste e ocupado, sem cachaça, sem marchinha. Coincidentemente ou não, é domingo, dia de se dedicar a Deus. Pelo menos antes do frango assado com batatas e da banheira do Gugu, ou depois da briga da família e das videocassetadas do Faustão.

    Deus tá aí o tempo todo, de tocaia.

    Depois que eu virei ateu e viado, meus tios-avós não podiam me ver que já começavam a perguntar, até antes do oi: mas como você pode não acreditar em Deus? Não sou praticante nem como ateu, nem como viado. Tudo é mais difícil e simples e complicado do que parece (ser libriano me entedia…). Mas hoje eu tenho simpatia por aqueles tios-avós insuportáveis. O medo sim que é onipresente.

    Poema "Teologia II", de Orides Fontela

    O poema é da Orides Fontela. E eu aqui, procrastinando.

  • doente

    Será que eu já teria morrido se não tivesse tratamento nenhum pro HIV? Sinto que a pergunta é cretina, mas também é legítima. Parece um desrespeito com todo mundo que sofre e sofreu com aids. Talvez seja. Mas o vírus é meu, silencioso que seja, e sussurra na dor de garganta e na imaginação. Talvez eu fosse sobreviver em todo o multiverso, independente da epidemia. Pode ser que eu só tenha doenças controláveis, chatas mas não morra nunca. Essa ideia me apavora.

  • minibiografias

    A camiseta do velho da loja de móveis velhos: You’re not important, get used to it. Ele varre a calçada nojenta do centro da cidade. Eu visto a minha camiseta da Madonna. Tenho tido vontade de usar estampas, coisa que antes não gostava, e antes disso, na adolescência, era só o que eu queria, mas não tinha dinheiro pra comprar roupa. Usava as camisas velhas do meu tio, sempre amassadas e destoantes. Eu queria ser tropicalista.


    O psiquiatra disse que acha que minha tristeza não é mais patológica. Eu reclamava do desencanto com a vida e o terapeuta sugeriu que tédio talvez seja arrogância e vice-versa. Aí disse: o néctar da vitória é servido no cálice do sofrimento. A gente gargalhou. A frase é do Fidel Castro, segundo ele.


    Minha vó pedia misericórdia pra Deus enquanto morria no leito do hospital e eu do lado, cuidador do turno, revisava um livro de seiscentas páginas sobre a dependência econômica da América Latina. Disseram que a revisão era urgente, não tinha como esperar. Minha vó morreu, passaram-se séculos antes do livro ser lançado. Disseram que os organizadores estavam mexendo nele ainda, então não tinha tanta pressa assim. Odeio a dependência econômica. Não sei o que é misericórdia. Penso muito em Deus.

  • jeitos de acordar

    De susto, de pavor, num grito cômico de terror, ou devagar e amorosamente feito um felino se espreguiçando, às vezes ainda com sono, outras como se a vigília fosse ininterrupta e dormir apenas um plano na agenda, dá pra acordar doendo, parece que um caminhão me atropelou a gente diz porque acordar pode ser superlativo, e pode ser mínimo, e normal, que tem gente que acorda e nem percebe ou segue dormindo e acha que acordou, foi no banheiro, só sente a cama quando o mijo encharca o lençol que pensou ser a privada, tem despertares rudes, tem uns que são fofinhos, te beijam a face e fazem cosquinha no baixo ventre, você acorda pra um pesadelo, pra um sonho, pra mais um dia como todos os outros e, com sorte, vai dormir de novo.

  • escatológico

    É ainda escatológico, mas esse é o meu acesso a outro mundo: o pungente peido do cachorro que ronca do meu lado. Minha avó estertorando também se desfazia em merda, a gente nasce vive e morre esmerdeada, mas os cachorros, os gatos, as crianças pelo menos têm uma escala mais afável. Se bem que, quando se estertora, a gente acaba morrendo pequena, é o que parece. Os cachorros estão muito vivos, só são incivilizados mesmo, peidam cagam vomitam comem regurgitam de novo voltam a comer. Como se sempre estivessem morrendo ou nascendo ou vivendo.

  • depois do almoço

    Meu cachorro come o cocô antes que eu consiga pegar do chão pra jogar fora, eca, cocô. Se eu dou bronca, ele apressa o maxilar. Se eu tento tirar ele (o cachorro) do caminho, ele me morde. (Um mundo em que o cocô me mordesse com certeza seria pior.) Eu quero gritar de nojo, e logo depois o cachorro nem lembra mais o embate e me olha com aquela carinha fofa e a boquinha limpa que eu preciso lembrar de não deixar que me lamba. Dizem que boca de cachorro é a coisa mais suja do mundo, mais imunda que boca de lobo. Eu não paro de aprender com os cachorros: a dedicação intensa a quaquer coisa que esteja no foco. A menos que apareça uma coceira, aí o foco é a coceira. E agora ele tá aqui deitado do meu lado, e eu me derretendo de amor e tentando segurar o almoço que quer sair disparado pela minha goela cada vez que lembro da cena. Engraçado que muita gente também gosta de comer cocô. Tenho nojo, mas respeito. Minha avó dizia: o que é de gosto é regalo da vida.

  • criança

    O processo inflamatório contínuo de viver na cidade traumática. Mas a menina anda por aí desafiando o medo: ter catorze anos, também lembro. Não fui criança doente, então me pego preso no lugar-comum de associar juventude e saúde, envelhecimento e dor nas juntas, padecer da nostalgia tonta que não vê na frente o que no futuro se vai nostalgiar. A menina é grande e desbocada. Fico muito feliz que ela exista.

  • poética

    Tenho escrito muita poesia, todo resto da minha vida é um engasgo. Preciso ir no médico, fazer exame de sangue, perco a hora e a guia, faço uns versinhos. Trabalho, família, fodas, amigos: versinhos. Poesia não serve pra nada. A minha ainda menos, que não sou poeta. É uma afronta ao capitalismo, talvez, o que daria um alívio. Pena que veterinário é tão caro, livro e restaurante nem se fala. Vida, cara. Que caralho…

  • o sonho que eu tive essa noite

    Eu era eu e não era, mesmo sendo eu e não sendo, como costuma ser.

    Num sobradinho de bairro arvorejado moravam o Daniel Johnston adolescente e a mãe dele, uma mulher cansada e bonita, mistura de Keira Knightley com Alice Braga. Eu-não-eu ficava hospedado lá sei lá por que, muito fã do Daniel Johnston, talvez para estudar o menino ou ensinar pra ele, e embarcava num flerte com a mãe solo.

    Só que um dia o Daniel Johnston tinha um surto violento me odiando e eu precisava fugir de tirolesa pela janela, aterrissava no gramado do vizinho e, quando ia pra rua, via lá longe uma explosão atômica e um tsunami de lava varrendo toda a cidade de São Paulo. Então eu e um monte de gente fugia e se refugiava na casa da mãe do Daniel Johnston.

    Os dias passavam no pós-apocalipse, o flerte aumentava e também a fome, porque acabados os enlatados da despensa a gente precisava caçar os ratos gigantes atômicos pra comer.

    Aí a Keira-Knightley-Alice-Braga-cansada descobriu um poço pra cima na despensa, que quando você levantava a mão era sugade para uma superfície misteriosa. Desesperançada, ela fez isso; apaixonado, eu fui logo atrás.

    Quando aterrissei, estava num gramado bonito, dessas casas de filme estadunidense. Lá estava a minha namoradinha sentada numa cadeira de praia com umas cinco pessoas, família e amigos, fazendo churrasco de hambúrguer e aproveitando o mundo lindo.

    Me convidaram pra participar. Eu entendi que era uma outra realidade do multiverso, em que a mãe solo era casada com um tiozão meio babaca e o Daniel Johnston não era autista nem gênio, era um adolescente boçal. A minha amada tinha envelhecido, tinha cabelos brancos e muitas rugas, e me dizia que gostava de mim, mas que a vida dela ali era melhor. Eu achava um desperdício, mas ficava feliz por ela parecer feliz, e afinal era uma escolha dela.

    Aí eu saía pra rua, achando que naquele universo o apocalipse não tinha acontecido, mas QUAL NÃO FOI MINHA SURPRESA QUANDO do lado de fora da casa linda era tudo cinza e Mad Max, ratos gigantes se matando, e a família feliz do Daniel Johnston sem graça era UM BANDO DE CANIBAIS SENHORES DA GUERRA. Então eu saí pelo bairro perigoso pra passear e ver a catástrofe.

    (Sonho é uma coisa que só é mesmo interessante pra ter e contar pro terapeuta…)

  • eclipse do apocalipse

    O preconceito contra evangélicos está longe de ser um problema no Brasil, mas isso não quer dizer que não exista. Ele se junta com discriminações sérias, principalmente contra pobres e contra pessoas que não (ou pouco) participaram da educação institucional, e um tanto de racismo, e aí sim vira uma coisa grave e que, além de machucar quem sofre, emburrece quem ignora, mas insiste em falar a respeito. Até aí, é o de sempre. Eu mesmo sou muito ignorante, talvez por isso Deus não tenha me dado dinheiro: pra que eu não saísse por aí buzinando bobagens. Mas Deus me deu dois dedos, um teclado, wi-fi e dinheiro, sim, o bastante pra pagar a hospedagem deste site, onde eu posso escrever o que quiser. Deus é bem sacana. Foi o que me ensinaram na escola dominical, mas com sinal invertido. Depois, a vida tratou de me virar do avesso.