Não sei se mais me irrita, diverte ou dá tesão
o misto de constrangimento, desconcerto e pavor
do homem hétero no parque
quando um cachorro monta em cima do cachorro
macho dele.
Categoria: diário
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dia do orgulho
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trapo de gato no sol
Todo dia chegando no trabalho eu passava na mesma calçada e pensava “gente, um gato morto!”. Na primeira vez que isso aconteceu, já ia ficando triste e chegando perto pra observar o mistério da morte largado no cotidiano indiferente, quando percebi outro mistério: o gato se mexia. Foi assim que conheci a Renata.
Minha amiga que disse que ouviu o papo: do homem na frente da loja dizendo pra outro: “Essa aqui é a Renata, ela tem 25 anos”. Então só podia ser a Renata mesmo: um trapo de gato, cheio de buracos calvos, largado no fiozinho de sol que os prédios deixam chegar na calçada suja e fedida dos Campos Elíseos. Todo dia, chegando no trabalho, eu pensava “meu deus, um gato morto!” antes de reparar que era o mesmo gato do dia anterior, só que em outra posição, ou ver um movimento lento de pulmão ou rabo e lembrar “Ah, é a Renata”. Ali deitada e aproveitando cada suspiro de vida, sem se incomodar com cachorros, carros nem gente que chegava perto pra fazer festinha. A Renata deitada no sol.
Faz tempo que não vejo ela. Provavelmente morreu? Que é o destino de todas as gatas. Talvez tenha encontrado uma nesga de sol no quintal ou fugido pra campos mais elísios? Tanto ser vivo e não vivo desaparece dessas ruas que é difícil se importar com algum deles. Eu mesmo tento aproveitar o máximo de sol que posso, andando sempre no mesmo horário na mesma calçada, antes de entrar pro prédio escuro e pra luz branca do escritório.
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o recalque da metrópole
Tem uma infestação de escorpiões no bairro, o que tem originado conversas cheias de anedotas assustadoras. Eu sempre tive muito medo de bichos peçonhentos, parece um medo irracional, apesar de ser racional, apesar de não ser essa a questão. Lembrei do Casé Angatu falando que, quando aparece uma cobra na aldeia, o pessoal entende como um aviso, um diálogo, e você não mata o mensageiro. Pega a cobra com cuidado e joga ela longe, mas não mata.
Já eu quero que todos os escorpiões e as baratas morram. Fico triste quando vejo um bicho seco ou tenho que eu mesmo tacar veneno em cima. Mas não sei lidar de outro jeito.
Um amigo teve infestação de escorpião no prédio no centro de São Paulo e disse que não tinha o que fazer, não existe veneno contra escorpião e, se dedetizar, é pior: o inseticida mata as baratas, que são a comida deles, e aí eles vêm com tudo pra cima, com fome e vingança. Não sei se é verdade, mas as anedotas ensinam muita astrologia.
Sei que esse caso, junto com ficar ouvindo muito Bad Gays, me deu vontade de reler o Boêmia dos ratos, da Sarah Schullman.
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vale tudo
Eu acho que to usando minha camiseta boa. Meu marido me olha e pergunta se eu vou sair de pijama.
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Não consigo assistir novela no horário da novela, então resolvi acompanhar os cortes e memes.
Minha mãe não entende o que eu acho tão engraçado na Odete Roitman. Eu não entendo por que só eu casco o bico.
Tenho um tanto de nostalgia do tempo que só havia uma tela na nossa frente. O que já era um absurdo, uma violência contra o tempo do corpo, que evoluiu durante centenas de milhares de anos pra ser mais lento que o videoteipe.
Hoje todo mundo tem crise de ansiedade, e dona Odete fala maldades preguiçosas com voz mole de Lexotan e aquele capacete de laquê. Pode não ser a vilã que precisamos, mas com certeza é a vilã que queremos.
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Ritual de dia útil: um pouco antes de começar a chorar ou quebrar as coisas, eu respiro fundo, encho a nonagésima xícara de café e começo a procurar outro emprego. Eventualmente, entre vagas arrombadas, acabo achando que meu trabalho ainda é bom, ainda é o menos ruim, consideradas as alternativas. A vida é muito indigna no sistema capitalista. Então ponho uma playlist de city pop no fone de ouvido e volto a — preencher planilha, revisar texto, apertar porca e parafuso.
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leituras

Esse ano, até agora, só consegui ler um livro inteiro. Sem contar os trinta livros que devo ter lido pro trabalho, já que meu trabalho é ler livros. Mas são leituras diferentes. Dá pra revisar um texto sem ler ele. E não dá pra ler um texto revisando ele. Deve ter quem faça autópsia e trepe ao mesmo tempo, mas não é minha praia.
Pra tentar trepar até o final, tirei esse Vida desinteressante da prateleira. A comediante Michelle Buteau tem uma piada de que, depois dos 40, a gente começa a calcular como vai cair. Eu comecei a fazer isso depois que levei dois tombos na quarentena, apenas por estar de pé, e levei dois anos pra me recuperar. Ando muito devagar agora, e é com o mesmo cuidado que me aproximo das coisas tristes. Não quero cair não.
Já o Cruz e Souza é uma leitura que tá levando meses, mas não desisto. Desses poetas que a gente só conhece pra escola e, quando se achega, faz uma nova amizade (nos 30 minutos que consigo ter amigos, enquanto como minha marmita).
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linkedin
Aquele verso da Ana C., “agora não sou mais severa e ríspida, agora sou profissional”. é irônico, mas também não é. Um currículo que se leva a sério é o que não se leva a sério. É o único jeito de uma poeta ter emprego.
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Carolina Maria de Jesus dizia que preferia catar papel na chuva do que trabalhar de doméstica, que era a única outra opção. Joan Brossa, dizem, fingia surtar e ser maluco pra não ter que trabalhar. Sempre lembro dessa história. E da Maura Lopes Cançado. Parece que ser maluco raramente compensa.
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Teve uma hora que eu tive que pensar: então vou ser escritor? “Escritor” como profissão. Às vezes eu coloco “poeta” no campo “profissão” em algum formulário ou contrato, mas é só porque acho engraçado. Também porque é verdade. Mas teve uma hora que eu pensei no que significaria ser “escritor” e pensei: deus me livre escrever pra Folha de São Paulo. Cuspo pra cima mesmo. (A gente se agarra em cada naco de dignidade…)
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Um dos meus melhores amigos me pediu pra escrever o posfácio do livro de poemas dele. Eu não sabia que ele escrevia poesia. Nem ele. Fiquei muito feliz não só com o convite, mas que ele tava fazendo versinhos. Tenho até doutorado em literatura e a casa entulhada de livros. E acho poesia uma bobagem. Mas também é a única coisa que importa. Acho muito difícil navegar nessas duas verdades, que são simultâneas, opostas, não excludentes. No final das contas, não tenho dúvidas de que, “quanto à literatura, mais vale um cachorro vivo”. Mas, além de não precisarmos chegar a tanto, um poema é quase um cachorro vivo. E o resto da vida é chutar cachorro morto. (Dito isso, to quase uma semana atrasado pra entregar o posfácio. Os poemas dele são lindos.)
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Depois de terminar uma das autobiografias do João Silvério Trevisan, dei de ler os diários do Al Berto. Sem sadismo, gosto de ver como os outros sofrem. Sofrer também é um aprendizado. A gente acha que chorar é um ato espontâneo e natural, mas mesmo o primeiro choro precisou de um tapa na bunda pra começar a acontecer. E, depois disso, um constante estudo. De como chorar melhor.
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sexta-feira da paixão
Já tive mil blogues. Quando ser encontrado era um desejo, mas a gente usava pseudônimo. A identidade real podia ser qualquer coisa, mas sempre vinha do silêncio barulhento de dentro, ecoando no som do modem que discava.
Quarentei e fiquei mais nostálgico do que o Saturno regente de sempre. Por isso que dizem pra não confiar em ninguém com mais de trinta.
Depois dos quinze, minha vida foi bastante on-line, millennial style. Por sorte e precariedade das tecnologias aqueles blogues do começo do século sumiram todos. Quando a internet virou um beco sem saída, comecei a deixar cartas anônimas nas ruas, no transporte público, mais ou menos como deixava bilhetes anônimos nos livros que pegava na biblioteca da cidade quando ainda não existia internet e eu não tinha comido lagosta. Mais ou menos, imagino, como naquele poema do Drummond, “me exponho nas vitrines porque preciso de todos”, algo assim.
Cada tempo com sua vitrine.

Agora uso o nome civil, inclusive o sobrenome paterno. Meu terapeuta parece que acha que isso é um grande progresso, talvez seja. O “progresso”, vejam bem, é que nos trouxe até aqui, mas a vida é felizmente imprevisível, um tantinho. Jesus sabia que ia ser esculachado e mesmo assim ficou surpreso.
Quem sabe num futuro próximo a gente ressuscite com um nome novo e um coração sagrado. Assuste as beatas, despiste o governo, mostre os buracos pra galera e ascenda belíssima e domical, vestido limpo, com pombinhas e anjinhos levando pulgas pras Alturas, amém.