fulano

Não tem nada que eu odeie mais no mundo (o racismo? o sistema capitalista? o apocalipse climático? a falência da hipérbole?) do que escrever minibio, os textinhos quase sempre em terceira pessoa que apresentam o palestrante, o autor, aquela bicha ali. Quem se define se limita, mas nem é isso. Também não gosto de me apresentar em situações sociais numa frase curta, mas nessas a gagueira dribla a afirmação, e dá pra rir. Eu gosto de dar risada.

Outro dia uma pessoa me perguntou o que eu faço. Talvez se eu tivesse uma profissão a resposta fosse fácil. Mas minha vida tem sido ficar de saco cheio e abandonar trabalhos precários em busca de outros trabalhos precários. Num aplicativo de pegação, uma vez respondi “sou estudante” e a gay anônima do outro lado perguntou “com essa idade?”. Se for pra explicar a resposta, melhor me safar com outra.

Pra tal pessoa, gaguejei “sou casado, tenho dois cachorros” e a resposta não convenceu, apesar de me parecer muito boa. Quando eu era criança, na classe média do interior do estado, ser casado era o que definia o sucesso do adulto. Nunca pensei que eu fosse querer me aproveitar disso. E pior: sem conseguir.

Quando pude escrever uma minibio nos meus próprios termos, foi só: “Fulano nasceu no ano tal em tal lugar”. Já foi uma grande conquista de anos de terapia, porque por muito tempo eu nem quis ter nome. Hoje aceito.

Em todo caso, acho muito desagradável ter que cacarejar essas coisas. A afirmação do eu é uma distração entediante. E sempre preciso fazer, especialmente pra conseguir novos trabalhos precários. Ossos do ofício, a propaganda é a alma do negócio. Odeio propaganda, odeio negócios. Gosto de roer outros ossos. Mas tenho meu marido e os dois cachorros, que me identificam pelo cheiro.

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