Categoria: pensando

  • inventário do irremediável

    Não sou amigo de nenhum ex-namorado. Alguns, não faz sentido: não tem mais nenhum tipo de sentimento ou convergência, só desejo o melhor, mas nem lembro deles. Um ou outro eu tenho raiva e às vezes tesão não canalizado, o que dá mais raiva. Pra esses eu também só desejo o melhor, mas quero que se explodam. Tem um que a gente teve um término doloroso e mal resolvido, mas que precisava terminar e não tinha outro jeito. Nesse eu penso com carinho e algum receio, vontade de sermos amigos. Mas amizade não é um ato voluntário. Talvez o primeiro passo: oi-tudo-bem-vamos-ser-amigues. Mas depois disso depende muito das correntes oceânicas.

    Tenho uma infinidade de ex-ficantes que desapareceram no tempo, cada um me deixou com um sentimento e uma doença venérea diferente. Esses é muito fácil amar e lembrar com carinho, porque não têm as nuances do convívio. Nesses casos, amor é o que a gente produz na nossa própria cabeça. É válido e limitado. Um deles morreu jovem enquanto a gente ficava, e essa é a única viuvez que eu vivi até agora. Odeio a sensação.

    Durante muito tempo, eu transava com quase todos os meus amigos. Hoje isso mudou. Talvez a casa de repouso que a gente planeja ter juntes não seja tão animada quanto projetamos. Me sinto velho e cansado. Sempre me senti assim. Tenho Saturno proeminente.

    No geral, não me arrependo de nada e cultivo com desleixo, mas ternura, as lembranças até as mais ruins. Tento gostar do presente, isso sim um esforço voluntário, quase sempre dá certo. Vivendo perigosamente as boas lembranças de depois.

    (Escrevo este texto porque topei com um ex na internet e veio aquela raiva vingativa. Desde que as coisas sejam gostosas ou motivo de escrita, to satisfeito.)

  • vida cachorra

    O cachorro pode ser um símbolo da alegria, da amizade, da subserviência, da sujeira, do desamparo. O gato, sendo mais, se presta a menos. No dia a dia, o cachorro tem a exata medida do que simboliza, mas é na concretude sem imaginação que a gente acaba encontrando ele: se lambendo, se coçando, seguindo o focinho por aí. O cachorro é um bicho só ação e contato, mais verbo que substantivo. E, no fim, é só ele mesmo. Uma vida inteira e efêmera, igual à nossa quando dá certo.

  • fóssil difícil

    Meu pai viveu o bastante pra que eu tenha muita memória dele, mas agora to chegando na idade de ter convivido com a morte dele tantos anos quanto estive com o corpo vivo, e vai aí uma vida sem lembranças novas, de relação unilateral a menos que a gente conte os sonhos como visitas externas, o que talvez não seja o caso. Então já quase não sei o que é memória e o que foi experiência, ando esquecendo como diferenciar as duas coisas ou vivendo as memórias passadas cada vez mais como experiências presentes. O cheiro, a voz, a visão, a pele estão se dispersando assim como a tristeza e a raiva, talvez tudo tenha se amalgamado e sido coberto por camadas de tempo que estão escondendo o meu pai, subtraindo ele de mim, possivelmente guardando ele pra escavações futuras.

  • esse consolo

    A minha vida não é minha, mas é menos ainda de outras pessoas. A vida não é de ninguém que esteja com ela. Como Deus não existe, a vida fica vagando por aí trombada num corpo e em outros troços desajeitados de matéria. É só no tropeço que a gente encontra a própria vida. Levanta no susto, se limpa, emputece, vai pedir desculpas e ela já era. Já se desfez na vontade do encontro. Pirulitou.

  • crítica literária

    O que é e não é boa literatura vai continuar sendo assunto escrito e falado até o antropoceno colapsar. Como se importasse. Mas importa, porque pega no nervo do afeto das pessoas, entre outros nervos mais mesquinhos. Minha irmã disse que não suporta Clarice Lispector e eu me assustei: sei que tem gente que não gosta, mas ela, que eu acho tão sensível e inteligente e tem tanta afinidade comigo, não gostar da minha escritora favorita… E o que ela criticou na Clarice é o mesmo, acho, que criticam em qualquer texto criticável. Eu mesmo leio coisas com raiva. Quando um poema não te fisga por dentro, tipo um gancho no peixe, tipo um pênis na próstata, em vez de querer morrer a morte boa, a gente quer matar a morte má. E assim começa a guerra.

  • intestino do espírito

    Tem um fio nas costas das coisas, o camarão é o exemplo, é a materialização do que Deus fez só em pensamento: nesse fio fica a alma (também feita de excremento).

  • apagada

    O que fica da gente é a memória, a pegada de carbono, o amor dado ao outro, provocado, sentido, as histórias e moléculas se desfazendo, o chorume, as cinzas, o futuro imaginado, a imaginação vibrando na linha fina das ondas gravitacionais, o peso no planeta, o peso do pecado, o efeito borboleta, o espírito eterno, fogo tolo, não sei o que fica da gente.

  • desatualizado

    É difícil ser contemporâneo, porque é uma questão de timing, que é uma palavra difícil de coincidir em português. Tudo é difícil, depende só do momento. Um dos lugares-comuns da velhice é o do sujeito estrangeiro na própria terra, a pessoa que olha ao redor e não reconhece nada, mesmo que não tenha saído do lugar. O trem do tempo segue andando, mas a gente vai ficando cada vez mais pra trás. Pode estar dentro dele, mas ele passa pela gente. Mas, mas, mas. Cada coisa tem seu tempo, e ele é um reloginho muscular, camuflado em corpo, dentro da cada coisa.

  • gosto é gosto

    Eu tive uma cachorra que adorava se esfregar em bosta na rua. A gente não podia bobear, de repente ela já tava esfregando o pescoço em alguma bosta.

    Tem aquela história da Hilda Hilst pedindo pro empregado dela tirar a bosta do cachorro do meio da sala. O empregado disse: bosta eu não pego não. E ela: por que não?, se eu, que sou doutora, pego. E ele: gosto é gosto, doutora.

  • dia seguinte

    Quantas obras-primas foram feitas em noites de insônia, também quantas porcarias. Quantos divórcios, quantas guerras começaram estouraram assim. Não há grãos de areia na praia tanto quanto punhetas e siriricas tocadas por querer dormir e não conseguir,

    e haja chá, leitinho, hidrelétricas pra manter as geladeiras abertas. É diferente de quem dorme no relento com medo da polícia, da matilha, da chuva, e de quem passava as noites na prisão de Salazar, com sirene tocando e cacetetes baldes d’água contra descanso. Você tem o conforto possível, o estritamente necessário, até mesmo o impensável – e não adianta. Nessas pensa e se eu separasse o céu e as águas, acendesse a luz, molhasse plantas e monstros marinhos? Sete noites insones depois, Ele pelo menos dormiu.