linkedin

Aquele verso da Ana C., “agora não sou mais severa e ríspida, agora sou profissional”. é irônico, mas também não é. Um currículo que se leva a sério é o que não se leva a sério. É o único jeito de uma poeta ter emprego.

*

Carolina Maria de Jesus dizia que preferia catar papel na chuva do que trabalhar de doméstica, que era a única outra opção. Joan Brossa, dizem, fingia surtar e ser maluco pra não ter que trabalhar. Sempre lembro dessa história. E da Maura Lopes Cançado. Parece que ser maluco raramente compensa.

*

Teve uma hora que eu tive que pensar: então vou ser escritor? “Escritor” como profissão. Às vezes eu coloco “poeta” no campo “profissão” em algum formulário ou contrato, mas é só porque acho engraçado. Também porque é verdade. Mas teve uma hora que eu pensei no que significaria ser “escritor” e pensei: deus me livre escrever pra Folha de São Paulo. Cuspo pra cima mesmo. (A gente se agarra em cada naco de dignidade…)

*

Um dos meus melhores amigos me pediu pra escrever o posfácio do livro de poemas dele. Eu não sabia que ele escrevia poesia. Nem ele. Fiquei muito feliz não só com o convite, mas que ele tava fazendo versinhos. Tenho até doutorado em literatura e a casa entulhada de livros. E acho poesia uma bobagem. Mas também é a única coisa que importa. Acho muito difícil navegar nessas duas verdades, que são simultâneas, opostas, não excludentes. No final das contas, não tenho dúvidas de que, “quanto à literatura, mais vale um cachorro vivo”. Mas, além de não precisarmos chegar a tanto, um poema é quase um cachorro vivo. E o resto da vida é chutar cachorro morto. (Dito isso, to quase uma semana atrasado pra entregar o posfácio. Os poemas dele são lindos.)

*

Depois de terminar uma das autobiografias do João Silvério Trevisan, dei de ler os diários do Al Berto. Sem sadismo, gosto de ver como os outros sofrem. Sofrer também é um aprendizado. A gente acha que chorar é um ato espontâneo e natural, mas mesmo o primeiro choro precisou de um tapa na bunda pra começar a acontecer. E, depois disso, um constante estudo. De como chorar melhor.

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *