indigna

Tenho pensado com mais frequência do que gostaria na indignidade da vida, e boa parte das minhas lamentações é despertada pela falta de dinheiro. Fico pensando “que mesquinhez”, porque o dinheiro tem uma dimensão moral que é difícil de espanar, mesmo que eu me esforce pra pensar de modo materialista. Penso: que bom seria me incomodar só com a mortalidade, a decadência e dissolução do corpo, olhar de manhã o imenso e me assombrar com a finitude do infinito. Mas minha lombar dói, chego no fim do mês sem poder comprar remédio, uma ansiedade me toma cada vez que a maquininha pede autorização pro sistema financeiro pagar o meu almoço, me dá vontade de chorar. Talvez, por inclinação de caráter, eu chorasse tanto quanto, mesmo se vivesse sem esses constrangimentos salariais. Saturno rege o mapa. E sei que não posso me responsabilizar pelo colapso do mundo sob o jugo do capitalismo. Mas que sonho seria: se só o que me perturbasse fosse a doença, o envelhecimento e a morte.