inventário do irremediável

Não sou amigo de nenhum ex-namorado. Alguns, não faz sentido: não tem mais nenhum tipo de sentimento ou convergência, só desejo o melhor, mas nem lembro deles. Um ou outro eu tenho raiva e às vezes tesão não canalizado, o que dá mais raiva. Pra esses eu também só desejo o melhor, mas quero que se explodam. Tem um que a gente teve um término doloroso e mal resolvido, mas que precisava terminar e não tinha outro jeito. Nesse eu penso com carinho e algum receio, vontade de sermos amigos. Mas amizade não é um ato voluntário. Talvez o primeiro passo: oi-tudo-bem-vamos-ser-amigues. Mas depois disso depende muito das correntes oceânicas.

Tenho uma infinidade de ex-ficantes que desapareceram no tempo, cada um me deixou com um sentimento e uma doença venérea diferente. Esses é muito fácil amar e lembrar com carinho, porque não têm as nuances do convívio. Nesses casos, amor é o que a gente produz na nossa própria cabeça. É válido e limitado. Um deles morreu jovem enquanto a gente ficava, e essa é a única viuvez que eu vivi até agora. Odeio a sensação.

Durante muito tempo, eu transava com quase todos os meus amigos. Hoje isso mudou. Talvez a casa de repouso que a gente planeja ter juntes não seja tão animada quanto projetamos. Me sinto velho e cansado. Sempre me senti assim. Tenho Saturno proeminente.

No geral, não me arrependo de nada e cultivo com desleixo, mas ternura, as lembranças até as mais ruins. Tento gostar do presente, isso sim um esforço voluntário, quase sempre dá certo. Vivendo perigosamente as boas lembranças de depois.

(Escrevo este texto porque topei com um ex na internet e veio aquela raiva vingativa. Desde que as coisas sejam gostosas ou motivo de escrita, to satisfeito.)