fóssil difícil

Meu pai viveu o bastante pra que eu tenha muita memória dele, mas agora to chegando na idade de ter convivido com a morte dele tantos anos quanto estive com o corpo vivo, e vai aí uma vida sem lembranças novas, de relação unilateral a menos que a gente conte os sonhos como visitas externas, o que talvez não seja o caso. Então já quase não sei o que é memória e o que foi experiência, ando esquecendo como diferenciar as duas coisas ou vivendo as memórias passadas cada vez mais como experiências presentes. O cheiro, a voz, a visão, a pele estão se dispersando assim como a tristeza e a raiva, talvez tudo tenha se amalgamado e sido coberto por camadas de tempo que estão escondendo o meu pai, subtraindo ele de mim, possivelmente guardando ele pra escavações futuras.