depois do almoço

Meu cachorro come o cocô antes que eu consiga pegar do chão pra jogar fora, eca, cocô. Se eu dou bronca, ele apressa o maxilar. Se eu tento tirar ele (o cachorro) do caminho, ele me morde. (Um mundo em que o cocô me mordesse com certeza seria pior.) Eu quero gritar de nojo, e logo depois o cachorro nem lembra mais o embate e me olha com aquela carinha fofa e a boquinha limpa que eu preciso lembrar de não deixar que me lamba. Dizem que boca de cachorro é a coisa mais suja do mundo, mais imunda que boca de lobo. Eu não paro de aprender com os cachorros: a dedicação intensa a quaquer coisa que esteja no foco. A menos que apareça uma coceira, aí o foco é a coceira. E agora ele tá aqui deitado do meu lado, e eu me derretendo de amor e tentando segurar o almoço que quer sair disparado pela minha goela cada vez que lembro da cena. Engraçado que muita gente também gosta de comer cocô. Tenho nojo, mas respeito. Minha avó dizia: o que é de gosto é regalo da vida.