Já tive mil blogues. Quando ser encontrado era um desejo, mas a gente usava pseudônimo. A identidade real podia ser qualquer coisa, mas sempre vinha do silêncio barulhento de dentro, ecoando no som do modem que discava.
Quarentei e fiquei mais nostálgico do que o Saturno regente de sempre. Por isso que dizem pra não confiar em ninguém com mais de trinta.
Depois dos quinze, minha vida foi bastante on-line, millennial style. Por sorte e precariedade das tecnologias aqueles blogues do começo do século sumiram todos. Quando a internet virou um beco sem saída, comecei a deixar cartas anônimas nas ruas, no transporte público, mais ou menos como deixava bilhetes anônimos nos livros que pegava na biblioteca da cidade quando ainda não existia internet e eu não tinha comido lagosta. Mais ou menos, imagino, como naquele poema do Drummond, “me exponho nas vitrines porque preciso de todos”, algo assim.
Cada tempo com sua vitrine.

Agora uso o nome civil, inclusive o sobrenome paterno. Meu terapeuta parece que acha que isso é um grande progresso, talvez seja. O “progresso”, vejam bem, é que nos trouxe até aqui, mas a vida é felizmente imprevisível, um tantinho. Jesus sabia que ia ser esculachado e mesmo assim ficou surpreso.
Quem sabe num futuro próximo a gente ressuscite com um nome novo e um coração sagrado. Assuste as beatas, despiste o governo, mostre os buracos pra galera e ascenda belíssima e domical, vestido limpo, com pombinhas e anjinhos levando pulgas pras Alturas, amém.
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