Tem um charme, um quê de coisa
monstra, sólida na modorra
cetro de um deus que dorme
e de repente solta porra
arma descarregada, vida infensa
milagre alcançado no nada
matéria concentrada
em mínima ofensa
Tem um charme, um quê de coisa
monstra, sólida na modorra
cetro de um deus que dorme
e de repente solta porra
arma descarregada, vida infensa
milagre alcançado no nada
matéria concentrada
em mínima ofensa
Quando a Janis Joplin grita
eu quero viver assim
num verso preciso da Hilda
(“Que este amor não me cegue nem me siga”)
equilíbrio improvável
de gordura e açúcar no lámen
na linguada do menino
entre o sol e o gramado de um dia
perfeito de outono
com um amor eterno e passageiro do meu lado
aquela cena aérea chapado
do Iguaçu
num filme de namorados
Mas a vida é cheia de excessos
indesejados, peidos
errados num compasso
desencaixado, o amor morre
a Hilda e a Janis já morreram
eu vou morrer também
mas não a tempo
não no momento certo que
é o momento antes
do término do tai chi
que eu assisti esmagado de amor
da dor prévia do adeus
antes do corpo dele me esmagar
e cuspir na minha boca
um soneto improvisado
e eu calçar o tênis e pegar a mochila
e ele me levar pra rodoviária
pra gente nunca mais
se encontrar
Dentro de trevas claras e um ciclone imóvel
você se esforça pra aspirar o ar disponível em grande quantidade
e perfeitamente aspirável pelos dutos e brônquios saudáveis
por que é tudo tão difícil? Nem tudo
é tão difícil, o corpo
escuta silêncios luminosos
e acolhe a sua ansiedade e a tristeza difusa em células
capazes de viver sozinhas mesmo que você entre
em parafuso, a bunda dorme
mas é só a posição
em que você pôs os glúteos e a coluna
diagramação do corpo
aos poucos não parece impraticável
mordendo e mastigando cada pedaço
o tempo te engole
gostoso
a vida é um mistério
tá tudo sozinho
eu ouço a sua voz
e volto pro ninho
se você me chama
tipo em oração
eu fico de joelhos
pra dar direção
na hora do medo
eu sinto o seu dedo
tipo uma oração
te dou direção
eu ouço a sua voz
tipo anjo chorando
sei que agora é a vez
eu ouço a sua voz
e me sinto voando
não vejo mais nada
me sinto caindo
da terra sagrada
não vejo mais nada
meu jesus cristinho!
tipo uma criança
você diz baixinho
é você quem manda
tipo uma criança
eu fico dançando
é tipo sonhando
sem fim nem início
você tá comigo
é tipo sonhando
e um coral cantando
tipo uma oração
cê dá direção
e tipo um saltério
você me é um mistério
to tipo sonhando
e te procurando
tipo uma oração
é a vez
sua voz
me dá direção
Antes que a ponta toque o buraco, começa
no vácuo do corpo o desejo nasce arfante
e a cabeça figura o sonho que encabeça
a entrada da matéria – única, triunfante
abrindo a via aberta sem nada que impeça
e sem sentir a dor que causa lancinante
assertivo corpo direto ao que interessa:
o gozo agora e então o gozo mais adiante
com cuspe e jeito o esfíncter se conforma
ao forçoso encontro com a outra mucosa
vai dando novas formas numa móvel forma
e o que antes era essa rua oculta e ciosa
banhada em luz sombria ganha nova norma
unindo matéria e nada – que goza, e goza, e goza.