Categoria: poesia

  • pau mole

    Tem um charme, um quê de coisa
    monstra, sólida na modorra
    cetro de um deus que dorme
    e de repente solta porra

    arma descarregada, vida infensa
    milagre alcançado no nada
    matéria concentrada
    em mínima ofensa

  • elegia de junho

    Quando a Janis Joplin grita
    eu quero viver assim
    num verso preciso da Hilda
    (“Que este amor não me cegue nem me siga”)
    equilíbrio improvável
    de gordura e açúcar no lámen
    na linguada do menino
    entre o sol e o gramado de um dia
    perfeito de outono
    com um amor eterno e passageiro do meu lado
    aquela cena aérea chapado
    do Iguaçu
    num filme de namorados

    Mas a vida é cheia de excessos
    indesejados, peidos
    errados num compasso
    desencaixado, o amor morre
    a Hilda e a Janis já morreram
    eu vou morrer também 
    mas não a tempo
    não no momento certo que 
    é o momento antes
    do término do tai chi
    que eu assisti esmagado de amor
    da dor prévia do adeus
    antes do corpo dele me esmagar
    e cuspir na minha boca
    um soneto improvisado
    e eu calçar o tênis e pegar a mochila
    e ele me levar pra rodoviária 
    pra gente nunca mais
    se encontrar

  • a vida é difícil, fácil 
    é sentar no pudim, na pica
    flácida do cansaço
    e da depressão, no colo da mãe 
    no seio da avó 
    murcho e pendente
    tipo os bagos do avô 
    tipo as bochechas
    da criança triste, do cachorro doente
    os ossos guardados na banha
    a vida é difícil, dura
    em meio a muita moleza

  • Dentro de trevas claras e um ciclone imóvel
    você se esforça pra aspirar o ar disponível em grande quantidade
    e perfeitamente aspirável pelos dutos e brônquios saudáveis
    por que é tudo tão difícil? Nem tudo
    é tão difícil, o corpo
    escuta silêncios luminosos
    e acolhe a sua ansiedade e a tristeza difusa em células
    capazes de viver sozinhas mesmo que você entre
    em parafuso, a bunda dorme
    mas é só a posição
    em que você pôs os glúteos e a coluna
    diagramação do corpo
    aos poucos não parece impraticável
    mordendo e mastigando cada pedaço
    o tempo te engole
    gostoso

  • tipo uma oração

    a vida é um mistério 
    tá tudo sozinho
    eu ouço a sua voz
    e volto pro ninho 

    se você me chama
    tipo em oração 
    eu fico de joelhos
    pra dar direção 

    na hora do medo
    eu sinto o seu dedo
    tipo uma oração 
    te dou direção 

    eu ouço a sua voz
    tipo anjo chorando 
    sei que agora é a vez
    eu ouço a sua voz
    e me sinto voando

    não vejo mais nada
    me sinto caindo
    da terra sagrada
    não vejo mais nada
    meu jesus cristinho!

    tipo uma criança 
    você diz baixinho
    é você quem manda
    tipo uma criança
    eu fico dançando 

    é tipo sonhando
    sem fim nem início 
    você tá comigo
    é tipo sonhando
    e um coral cantando

    tipo uma oração 
    cê dá direção 
    e tipo um saltério
    você me é um mistério 
    to tipo sonhando
    e te procurando
    tipo uma oração 
    é a vez
    sua voz
    me dá direção 

  • metafísica aplicada

    Antes que a ponta toque o buraco, começa
    no vácuo do corpo o desejo nasce arfante
    e a cabeça figura o sonho que encabeça
    a entrada da matéria – única, triunfante

    abrindo a via aberta sem nada que impeça
    e sem sentir a dor que causa lancinante
    assertivo corpo direto ao que interessa:
    o gozo agora e então o gozo mais adiante

    com cuspe e jeito o esfíncter se conforma
    ao forçoso encontro com a outra mucosa
    vai dando novas formas numa móvel forma

    e o que antes era essa rua oculta e ciosa
    banhada em luz sombria ganha nova norma
    unindo matéria e nada – que goza, e goza, e goza.