a vida é difícil, fácil
é sentar no pudim, na pica
flácida do cansaço
e da depressão, no colo da mãe
no seio da avó
murcho e pendente
tipo os bagos do avô
tipo as bochechas
da criança triste, do cachorro doente
os ossos guardados na banha
a vida é difícil, dura
em meio a muita moleza
Categoria: poesia
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Dentro de trevas claras e um ciclone imóvel
você se esforça pra aspirar o ar disponível em grande quantidade
e perfeitamente aspirável pelos dutos e brônquios saudáveis
por que é tudo tão difícil? Nem tudo
é tão difícil, o corpo
escuta silêncios luminosos
e acolhe a sua ansiedade e a tristeza difusa em células
capazes de viver sozinhas mesmo que você entre
em parafuso, a bunda dorme
mas é só a posição
em que você pôs os glúteos e a coluna
diagramação do corpo
aos poucos não parece impraticável
mordendo e mastigando cada pedaço
o tempo te engole
gostoso -
tipo uma oração
a vida é um mistério
tá tudo sozinho
eu ouço a sua voz
e volto pro ninhose você me chama
tipo em oração
eu fico de joelhos
pra dar direçãona hora do medo
eu sinto o seu dedo
tipo uma oração
te dou direçãoeu ouço a sua voz
tipo anjo chorando
sei que agora é a vez
eu ouço a sua voz
e me sinto voandonão vejo mais nada
me sinto caindo
da terra sagrada
não vejo mais nada
meu jesus cristinho!tipo uma criança
você diz baixinho
é você quem manda
tipo uma criança
eu fico dançandoé tipo sonhando
sem fim nem início
você tá comigo
é tipo sonhando
e um coral cantandotipo uma oração
cê dá direção
e tipo um saltério
você me é um mistério
to tipo sonhando
e te procurando
tipo uma oração
é a vez
sua voz
me dá direção -
metafísica aplicada
Antes que a ponta toque o buraco, começa
no vácuo do corpo o desejo nasce arfante
e a cabeça figura o sonho que encabeça
a entrada da matéria – única, triunfanteabrindo a via aberta sem nada que impeça
e sem sentir a dor que causa lancinante
assertivo corpo direto ao que interessa:
o gozo agora e então o gozo mais adiantecom cuspe e jeito o esfíncter se conforma
ao forçoso encontro com a outra mucosa
vai dando novas formas numa móvel formae o que antes era essa rua oculta e ciosa
banhada em luz sombria ganha nova norma
unindo matéria e nada – que goza, e goza, e goza.


