Eu nunca joguei, entendi ou simpatizei com o futebol, então talvez não consiga escrever?: a hipótese de um jogador (uma jogadora?) exímio no drible, mas péssimo no gol e mesmo no passe. Ele ou ela poderia passar os noventa minutos do jogo sozinhe contra todes, com a bola quicando e voltando magnetizada para os pés. A torcida vai ao delírio e ao ódio, mas principalmente à frustração esperançosa. Quando e jogadore tenta passar a bola pra alguém, a bola volta pra ile; quando tenta fazer gol, acaba errando tão feio que só não cai chorando de vergonha no campo porque consegue pegar a bola de novo e rápido, antes que ela saia do campo, antes que as mãos do gol a agarrem. Não sei em que momento o juiz (a juíza?) apita. Quais perguntas vão ser feitas pelos jornais? Os comentários na internet são impiedosos, mas também elogiosos. Se a pessoa não fosse tão apaixonada por futebol, poderia ter tido uma carreira na dança, aliás muito mais bem-sucedida. Mas segue jogando e terminando sempre em zero a zero. O que parece uma derrota, e também parece uma vitória.
Categoria: escrever
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o poeta como ente não administrativo
A grande vantagem do texto curto: que, se é ruim, pelo menos é curto (quem disse isso?). Outra vantagem, totalmente relacionada: que, sendo curto, pode calmamente ser ruim. Eu adoro escrever poema ruim. Às vezes faço escolhas ruins de propósito. Não significa que eu pudesse fazer escolhas boas. Talvez eu gostasse do toque de Midas, que artista não gostaria?, que tudo que eu escrevesse fosse clássico, iconoclástico, inesquecível, importante. Mas a história de Midas tá aí pra prevenir a vaidade, e tanta coisa é melhor que o ouro. La vita è bella perché è varia. No que me concerne, no que eu acho que de melhor tenho a oferecer pro mundo, do nariz eu tiro só meleca mesmo.
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lamentações
Se eu tivesse uma esposa, escreveria mais. É horrível mas é verdade. Ou uma faxineira, uma cozinheira. Por isso tem menos mulheres escritoras na história, no mundo. Hashtag Silvia Federici. Mas vim ser viado, o que tem seu charme. Meu banheiro é imundo. O da minha vó também era. Ela era porca, mas agora eu penso: era autônoma. Eu amava muito a minha avó e cada vez que ressignifico ela amo mais. Talvez porque ela então se aproxime mais do que eu gostaria que ela fosse, agora que ela morreu e a vida não atrapalha. Ninguém da minha família inicial era escritoure. Minha mãe era escrevente, o que é quase a mesma coisa. E minha vó tinha imaginação, o que era mais parecido ainda. Foi diagnosticado como esquizofrenia, mas é parecido. Eu não sou louco. Sou louca, o que é quase igual, mas é bem diferente. Queria ter mais tempo pra escrever.
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hipótese absurda
“O escritor quer ser lido”, repetia Hilda Hilst enquanto driblava todas as possibilidades de isso acontecer. Talvez o escritor não queira ser lido. A pessoa quer ser amada, incensada, aceita pela mãe e por Jesus, que nunca vêm. Quer ter uma vida mais fácil do que a vida tão difícil, uma grana de direitos autorais caía bem, mas o escritor o que quer é escrever, e quem lê esses escritos coloca eles em risco de não valerem nada. O texto vale tudo pra quem escreve. Pra quem lê, pode ser um salvador, mas também pode ser uma pedra no caminho ou , hipótese absurda, motivo de bocejo, riso, indiferença. Um nada. O ser humano, pelado ao relento, quer muita coisa. Mas o escritor só quer ser deixado em paz.